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domingo, 23 de junho de 2013

Dos protestos e da democracia: resposta a um leitor


Recebi um e-mail hoje que merece uma resposta pública, apesar de eu estar um tanto cansado dessas discussões políticas às quais fui meio que empurrado no decorrer da semana que se passou. Meu interlocutor, em sua mensagem, demonstrou uma certa incompreensão e preocupação de/com minhas perspectivas políticas em relação às minhas perspectivas teológicas. Ele afirma não compreender como um “teólogo e ministro liberal e gay” pode ter expresso opiniões contrárias ao “movimento popular que tomou conta das ruas do Brasil”, e afirma que eu apenas demonstro “uma inclinação política conservadora e direitista”.

Bem, não sei exatamente que sentidos meu leitor atribui aos termos “liberal”, “conservador” e “direitista”, e como creio que, provavelmente, atribua-lhes sentidos distintos dos quais lhes atribuo, é bom que eu defina meu posicionamento político aqui.

Em primeiro lugar – para lidar com a adjetivação “teólogo e ministro liberal” –, definir o sentido do que seja uma teologia liberal é algo complexo. Acredito, porém, que os pensamentos que divulgo neste blog são suficientes para demonstrar minha compreensão da tradição teológica liberal. Uma coisa, contudo, posso e devo acrescentar: o Cristianismo Liberal não é sinônimo de um “tudo é válido”, e, para o que discuto agora, não é sinônimo de nenhuma tradição política específica (i.e., ser um cristão ou judeu liberal não significa, necessariamente, ser um adepto do liberalismo político). Em meu caso específico, ademais, a Teologia Liberal que molda minha fé não é sinônimo de Teologia da Libertação. A tradição teológica liberal tem mais a ver com nossa atitude para com a relação entre nossa tradição de fé e o conhecimento produzido pelo homem – i.e., a ciência, a filosofia, as artes, a cultura etc. Essa atitude, obviamente, influencia nossas atitudes e crenças políticas, mas não significa que cheguemos às mesmas conclusões – e, talvez, seja justamente a diversidade de opiniões que cristãos (e judeus) liberais mantêm entre si, no interior de sua própria tradição, o que mais marque a tradição liberal. Isso significa que haverá cristãos (e judeus) teologicamente liberais que abraçarão as mais diversas perspectivas do espectro político. Eu, por exemplo, sou, politicamente, um liberal democrata – um democrata que se move na tradição do liberalismo político clássico.

Quando se fala, no Brasil, em liberalismo político, geralmente as pessoas levantam as sobrancelhas por tenderem a equiparar o termo à ditadura, à violência, à antidemocracia, à exploração etc. Criou-se a tradição de demonizar esse termo. Assim, o liberalismo político (no Brasil, compreendido como ideologia da “direita”) está associado, no discurso político dominante no país, à ditadura, à não-democracia, à exploração, à permanente miséria das “classes” menos privilegiadas. Isso, obviamente, para qualquer um que se dê ao trabalho de ler um pouco mais, não é verdade. Ser um liberal, por exemplo, é acreditar que a presença excessiva do Estado na vida do cidadão é um obstáculo à sua liberdade – o que está em oposição à compreensão de socialistas, por exemplo. O liberalismo político emergiu, historicamente, como uma resposta contrária ao poder coercitivo do Estado absolutista; defendendo, assim, a liberdade política, intelectual, religiosa e econômica do indivíduo. Conceitos como liberdades fundamentais, Estado de direito, liberdade de pensamento, liberdade religiosa etc, são noções básicas no pensamento liberal. Essas noções estão intrinsecamente atreladas à minha própria tradição de fé. A defesa desses princípios é essencial em minha compreensão e prática políticas.

Em minha compreensão do que seja um Estado de direito – na verdade, minha compreensão é uma ampliação da noção clássica liberal, sendo chamada de Estado democrático de direito –, neste vigora o império da lei. À lei, estabelecida por meio de representantes eleitos democraticamente, estão submetidas as relações entre o Estado e os cidadãos e desses entre si. Não pode haver liberdade e democracia onde não haja respeito às leis democráticas. Esta é uma compreensão básica para minha forma de compreender a eticidade da vida na pólis.

Por que me opus às manifestações nas ruas, então? Bem, na verdade, não me opus às manifestações per se. Opus-me à maneira como elas se deram. Opus-me ao aberto desrespeito aos princípios democraticamente estabelecidos da Constituição brasileira. O exemplo mais claro desse desrespeito? O impedimento ao livre movimento da maioria dos outros cidadãos! Para o meu leitor, isso é “irrelevante e insignificante”, mas o fato é que esse é um direito estabelecido pela Constituição Federal, e se começarmos a definir o que seja irrelevante ou insignificante dentre os princípios constitucionais, para onde caminharemos como uma democracia?

Ademais, essa não foi a única razão pela qual me opus ao “movimento popular que tomou conta das ruas do Brasil”. Opus-me aos métodos e às concepções políticas que serviram de base ao início do movimento. Por trás do que se iniciou em São Paulo há uma ideologia contrária ao que defendo política, social e economicamente; há um enorme vale que me separa filosoficamente daquele movimento. Mesmo reconhecendo que, talvez, a maioria dos manifestantes que se levantaram no resto do país não partilhem das bases filosóficas dos grupos que lideraram os protestos em São Paulo – dentre eles, em várias partes do Brasil, há pessoas que amo e respeito muitíssimo, há amigos com os quais convivo ou convivi –, esses utilizaram dos mesmos métodos que ferem minha noção de eticidade democrática e de minha noção de justiça. Acredito e confio nas instituições democráticas e constitucionais; essas são o que mantêm o Estado brasileiro de pé. Essas instituições são necessárias à minha noção de civilidade, e delas não posso abrir mão – pois se o fizesse, estaria desacreditando a democracia, e como já disse, sou um democrata.

Muitos de meus conhecidos e leitores, incluindo meu interlocutor a quem respondo aqui, se ofenderam com alguns de meus comentários. Ofenderam-se com minhas escolhas semânticas. Prefiro pensar que a causa de seu sentimento seja apenas a paixão que os levaram às ruas, e o fato de eu ter tratado do tema enquanto a coisa acontecia. Se leram o que já escrevi antes, saberão que sou um defensor do direito democrático e das liberdades civis. Saberão que defendo o direito de, mesmo meus opositores mais vocíferos, dizerem o que pensam. Saberão que, por exemplo, defendi publicamente o direito de um pastor “conservador”que prega uma mensagem percebida como anti-gay ser livre para dizer oque ele pensa, mesmo eu estando entre aqueles que ele condena. E isso porque sou um ardoroso defensor da liberdade e da democracia. Mas a liberdade e a democracia na qual acredito e confio só existe dentro do domínio da lei democrática. Quando grupos minoritários de cidadãos resolvem que o seu direito é mais relevante e mais significante que os dos outros, não me resta outra coisa senão me opor a eles. Protestos devem se dar dentro da lei (que, em nosso atual cenário, é democrática) e da ordem, respeitando os direitos de todos os demais cidadãos. Quando se abre mão disso, legitima-se a ação de criminosos, como aqueles que arruaçaram as cidades brasileiras nos últimos dias. Se eu posso ilegalmente interditar vias públicas (causando o caos em cidades já tão problemáticas), não há nenhuma razão moral pela qual possa esperar que outros respeitem outros direitos dos demais cidadãos. É uma questão de princípio. Se isso me torna um “direitista” e um “conservador”, que seja, então. Não me interessam os rótulos, interessam-me os conteúdos – e os meus conteúdos intelectuais foram expostos!

Minhas orações e minhas ações cidadãs são sempre pelo fortalecimento da democracia neste país! Paz a todos!

Gibson da Costa

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Meu único compromisso é com o Estado Democrático de Direito!


Estamos em 2013, mas tenho a impressão de que há um saudosismo extremado das décadas de 1960 e 1970 na mente de muitos. O Brasil não vive mais um regime ditatorial. As pessoas podem quase que dizer tudo o que pensam – claro, se elas não agridem a sensibilidade de correção política de multiculturalistas pós-modernos, dos crentes no messianismo vétero-marxista ou no salvacionismo neo-socialista etc. E, mais importante ainda para o que acontece hoje, os cidadãos podem escolher livremente aqueles que os governarão e representarão legislativamente.

Os cidadãos brasileiros não são vítimas da incompetência e corrupção de seus governantes e legisladores. Não! São cúmplices! Foram os cidadãos que escolheram aqueles contra os quais supostamente protestam – se bem que algumas mentes “esclarecidas” dentre eles dizem protestar contra aquilo que chamam de “Direita”, como se o Brasil fosse governado agora pelo DEM ou PSDB, grupos que são mais prontamente identificados como essa entidade abstrata designada como “Direita” (se bem que é bom reconhecer logo agora que sua atual minoria e insignificância política, entretanto, não os absolve de sua culpa passada no cenário Federal e, muito menos, nos variados cenários municipais e estaduais presentes!). São esses cidadãos quem legitimam a incompetência de muitos desses cretinos que extraem benefícios do eleitorado, defendendo os interesses de todos, menos de sua suposta “base” eleitoral.

Aqueles que protestam nas ruas, e dentre eles, o populacho ensandecido que se auto-adjetiva como “revolucionário” (vide discursos de “instruídos” universitários que conclamam seus iguais à revolução nas redes sociais), têm algum objetivo claro com seu movimento (que, sim, até certo ponto – muito limitado, talvez – possui legitimidade racional)? Ou estariam apenas sendo levados pela ânsia de aproveitarem a presença maciça da imprensa internacional para mostrarem que também podem ser “revolucionários”?

O fato é que vivemos numa democracia – imperfeita, sim, mas uma democracia assim mesmo –, num Estado Democrático de Direito. Isso exige um comprometimento com as liberdades civis, independentemente de quão insatisfeitos estejamos com a situação econômica, política ou social. Como cidadão, como um Ministro religioso e como um educador, tenho um compromisso com a Democracia e com o direito. É isso que ensino a meus paroquianos e alunos. É nisso que acredito. É em favor disso que voto. É isso que espero dos demais cidadãos, que estão presos ao mesmo contrato constitucional que eu. Minha vida como cidadão está comprometida com aqueles princípios estabelecidos pela Constituição Federal. Assim, anseio pelos direitos que possuo, mas também reconheço que estou preso a deveres.

A Constituição estabelece algumas coisas sobre as quais tenho pensado como consequência do que tem ocorrido no Brasil nos últimos dias. Ela, por exemplo, estabelece que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei”, e que “é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz” (Art. 5º). Comparando isso com as notícias disponíveis sobre os “protestos” Brasil afora – nos quais algumas das liberdades de outros cidadãos lhes são negadas –, me pergunto se poderíamos confiar nessa empreitada nas ruas como um movimento “democrático”. Que tipo de movimento “democrático” se empenharia em retirar de outros cidadãos, que não compartilham de suas expectativas ou não concordam com seus métodos – ou, quem sabe, simplesmente querem voltar para casa depois de um dia de trabalho –, dois de seus direitos constitucionais?... Minha ética democrática, os princípios que regem minha vida social, cidadã e profissional, me obrigam a responder esse questionamento com um simples: “nenhum”! Nenhum movimento que se suponha democrático sabotaria princípios que mantêm a própria Democracia de pé. Não me importa o quão impopular seja minha compreensão de Democracia, e muito menos os adjetivos comuns que aqueles que pensam como eu têm recebido dos “iluminados” do mundo virtual. O meu único compromisso, neste caso específico, é com o Estado Democrático de Direito.

Os noticiários já veicularam o que pretendem fazer hoje aqui no Recife. O Jornal do Commercio online, por exemplo, divulgou ontem à noite o seguinte:

“O percurso só será definido de última hora pelas lideranças do movimento, mas os destinos mais prováveis são Marco Zero, pela Avenida Conde da Boa Vista, ou Centro de Convenções, sede provisória do governo do Estado, pela Avenida Agamenon Magalhães. Grupos se articulam para ir juntos ao Derby, saindo dos quatro cantos da cidade e de outros municípios do Grande Recife. Pelas redes sociais, ao menos 4 mil pessoas prometem se encontrar às 14h no cruzamento entre a Avenida Rui Barbosa e a Rua Amélia, nas Graças, Zona Norte.
Membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e integrante da Frente de Luta pelo Transporte Público, o estudante Pedro Josephi diz que a manifestação principal será a saída do Derby, mas que haverá ativistas posicionados estrategicamente em alguns Terminais Integrados (TIs) do Recife. “Não podemos revelar todos os direcionamentos, mas faremos outras ações, como barricadas nos TIs. São várias frentes de atuação”, afirma.” (http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2013/06/19/uma-quinta-feira-para-ficar-marcada-na-historia-do-recife-87203.php)

Não preciso comentar o pequeno trecho acima. A atitude dos supostos “organizadores” demonstra onde não está seu compromisso – não está com o direito alheio, logo, não está com a Democracia.

O mesmo artigo acima, termina da seguinte forma:

“[...] Diante do temor de o protesto pacífico descambar para atos de vandalismo, como ocorreu noutros locais, empresas, comércio, escolas e universidades reduziram o expediente. A Secretaria de Defesa Social (SDS) alerta que pessoas podem se infiltrar na multidão para depredar o patrimônio público. Mas o movimento garante que o pacifismo é bandeira de que não abrem mão. Tanto que a concentração se dará diante do Comando-Geral da Polícia Militar.”

E, acompanhando o que divulgavam nas redes sociais, encontrei esta pérola digitada por um estudante de curso de Licenciatura em História (sim, um possível futuro professor!) de uma Universidade Federal em Recife:

“Gostaria de informar pra os "pacifistas" de plantão que na história, a única revolução que foi vitoriosa sem violência aconteceu na Índia. E ainda assim o sangue de muitos manifestantes escorreram pelas ruas. E outra coisa, x9 tem vida curta...” [sic]

...Ele não só não parece acreditar muito em ideias como paz e democracia, como acredita estar iniciando uma “revolução”! É numa hora como essa que tenho vontade de perguntar, junto com Paula Cole: “Where have all the cowboys gone?”

O “movimento” parece ser levado por uma crença em um mundo populado por bandidos e heróis presa ao século passado. Não possui um objetivo claro. É politicamente inconsistente. E não possui um compromisso com a ordem democrática. É por essa e por outras razões que me recuso a participar de toda esta loucura. Não poderia falar em Democracia se contribuísse com essa incoerência pseudo-popular!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A "Lei" cristã


É engraçado como alguns desses pregadores da televisão e rádio se esquecem do sentido de "Lei" para as Escrituras cristãs:

"Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas." (Mateus 7:12)

"Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice, e todos os outros se resumem nesta sentença: 'Ame o seu próximo como a si mesmo'. O amor não pratica o mal contra o próximo, pois o amor é o pleno cumprimento da Lei.” (Romanos 13:8-10)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Do Confronto ao Diálogo: o estilo Batista de ser e a questão ecumênica no Brasil


Nilo Tavares, um amigo do Rio de Janeiro, que fiz por meio deste blog, lançou o livro:

"Do Confronto ao Diálogo: o estilo Batista de ser e a questão ecumênica no Brasil"

190 páginas - R$ 36,90


Maiores informações sobre o livro:



Maiores informações sobre o autor:


"Perfeitos como o Pai que está no céu" - uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Como é óbvio em nossa experiência ocidental moderna – alguns a chamariam de pós-moderna, mas deixarei essa discussão para outros –, falar sobre qualquer coisa é uma empreitada complexa. No caso da fé, da teologia, essa complexidade parece ser ainda maior, já que – no caso do Cristianismo – estamos tão fragmentados que não conseguimos enxergar aquilo que nos deveria unir. Muitas vezes, utilizamos os mesmos termos, mas eles ganham um sentido e uma intenção tão distintos que é difícil acreditar que falemos a mesma língua, e muito menos que partilhemos a mesma fé. Isso, para mim, é triste (quando não cômico).

Na verdade, essa é uma das razões pelas quais me preocupo tão pouco em discutir teologia sistemática neste espaço. Prefiro me ater àquilo que julgo ser o básico do básico, àquilo que acredito ser o espírito da tradição cristã. Quando me recuso a, geralmente, tratar de detalhes teológicos específicos sobre o quê, como, onde, por quem, para quê etc, é por julgar que essas questões – apesar de serem importantes para o fazer teológico – são irrelevantes para o viver cristão. Você, por exemplo, cita trechos bíblicos para falar sobre comportamentos culturais (o que comer, como se vestir, os papeis do homem e da mulher etc) como se esses fossem o Cristianismo; eu não preciso dizer que discordo plenamente de sua compreensão.

Por exemplo, você citou Mateus 5:48 (“...sejam perfeitos como é perfeito vosso Pai que está no céu”), mas, a julgar pelo sentido que deu ao trecho, acredito que não tenha lido os versículos anteriores a ele. Se tentar reler o trecho a partir de, pelo menos, o versículo 43, verá que a discussão ali se trata do amor divino que, segundo o trecho, se estende sobre todos – e é justamente essa perfeição divina que seria esperada dos discípulos de Jesus:

Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!' Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? […] Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.” (Mateus 5:43-48)

As Escrituras certamente contêm inúmeras condenações, e, infelizmente, parece ser sobre essas que recaem as preocupações de boa parte dos fiéis cristãos. Eu, como já escrevi várias vezes aqui, prefiro me preocupar mais com o lado do “fazer” do que com o “acreditar” ou “não fazer” do Cristianismo. Não estou preocupado se acredito ou não em determinado dogma ortodoxo cristão, pois se Deus for realmente o que as Escrituras dizem ser, “se importará” mais com a forma como vivo minha vida em relação a meus semelhantes e à criação do que com as palavras nas quais digo acreditar.

Para mostrar um outro exemplo, tirado do mesmo conjunto de discursos no Evangelho de Mateus que você cita, veja este trecho (Mateus 7:12):

Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas.”

Quando penso em religião, é com isso que estou preocupado. O que me preocupa é a fé materializada na prática do dia a dia. Obviamente, as formulações teológicas são importantes para mim; mas, em se tratando da forma como encaro o ministério religioso, esse é um aspecto secundário. É o que a tradição ensina sobre como construir relações que me interessa, e não detalhes sobre quantos anjos podem dançar na cabeça de uma agulha. Estou mais interessado numa religião viva, que me ensine a trazer Deus para a realidade do mundo, do que numa religião que se preocupa com os supérfluos da vida. Não é uma questão de quem interpreta o Cristianismo da maneira certa ou errada, trata-se apenas de diferentes perspectivas - essa perspectiva preocupada com a "ortopraxia" é o caminho que escolho seguir, é minha forma de compreender a fé cristã.

Um grande abraço!

+Gibson

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Qual caminho escolher: condenação ou compaixão?


Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados.
(Lucas 6:37)

Ele gritava freneticamente palavras de condenação. Deus, para ele, estaria furioso com a humanidade, e, por isso, enviava sinais de Sua ira para que nos arrependêssemos de nossos pecados antes que não tivéssemos mais tempo para tal. A ênfase na “moralidade” sexual era clara, já que era praticamente apenas sobre isso que ele falava…

Testemunhei essa cena num lugar público da cidade. Mas também poderia ter sido num ambiente mais privado duma igreja, ou através da televisão, das ondas de rádio, ou por meio da internet. Esse tipo de cena se torna cada vez mais comum no universo cristão brasileiro. O Cristianismo é sequestrado e traído por um ambiente político cada vez mais polarizado.

O que mais me incomoda em tudo isso é que a mensagem cristã – sim, o Evangelho – parece ter sido transformada de um chamado à salvação em uma afirmação categórica de condenação. Jesus parece não ser mais, para esses pregadores presentes nas mais diferentes tradições cristãs, o Salvador do homem; ele parece ser, ao menos para esses anunciadores do desespero, o condenador do mundo – aquele que trará a fúria divina, o fogo e enxofre do sofrimento, para aqueles que não aderem à sua [i.e., desses pregadores] interpretação específica do Cristianismo! É importante reconhecer que essa não é uma atitude nova – ela é recorrente, em diferentes momentos históricos, e não apenas na tradição cristã –, mas essa ênfase numa teologia da condenação não deixa de ser tristemente equivocada, a despeito de sua permanência na história do Cristianismo. [Por outro lado, é bom que eu deixe claro aqui que a ênfase excessiva na bondade humana dada por nós cristãos liberais também pode ser equivocada, já que pode nos levar a uma aparente – sim pois é aparente apenas – tolerância àquilo que atenta contra a dignidade humana; então, os excessos são cometidos por todos nós, apesar de aqui eu estar me debruçando apenas sobre um desses equívocos.]

Como um discípulo do rabino galileu, vejo Jesus de Nazaré como meu “Salvador”, independentemente do sentido que atribuo ao termo. Diferentemente da maioria dos demais cristãos, vejo a salvação oferecida por Cristo não como uma expiação pelos meus pecados, e, assim, não apenas como relacionada com sua “morte e ressurreição” – apesar de essas duas palavras serem essenciais à narrativa que se construiu em torno de Jesus e de sua importância para a emergência do movimento que se organizaria posteriormente em torno de sua memória –, mas por meio de seus ensinamentos e de seu exemplo. Geralmente, não penso em Jesus como alguém que morreu por mim, mas como alguém que viveu por sua halakha e que, assim, tornou-se meu caminho para Deus. Seja como for, Jesus representa salvação, e não condenação; vida, e não morte. Então, quando alguém prega um Jesus de ódio, um Jesus condenador; quando alguém transforma a halakha de Jesus – aquele caminho da compaixão, a via do sola caritas – num sinônimo de fúria e ira, de condenação e incompassividade, de pena de morte, então esta pessoa está, para mim, dando voz àquele discurso que os Evangelhos dizem ter Jesus condenado. Se trata de uma traição à tradição atribuída ao grande Rebbe galileu.

Sim, acredito que o mal deva ser condenado. Os seguidores de Jesus devem continuar a condenar aquilo que viola a dignidade do ser humano: a violência, a injustiça, a corrupção – e, talvez, alguns de nós tenhamos discordâncias sobre quais sejam essas coisas numa vida cada vez mais complexa –, mas essa condenação não significa nos tornarmos juízes da vida de outros seres humanos, como se fôssemos a encarnação da pureza e da divindade e os outros fossem os “pecadores”. Prefiro pensar a condenação do mal no mundo como um testemunho em nossas ações da compaixão que somos convocados a compartilhar com todos os seres humanos e com toda a criação. Assim, mais “cristão” do que apontar os “pecados” alheios seria abrir os braços para aquele que julgamos estar “perdidos” (só para repetir o termo utilizado pelo “pregador” que citei no início desta conversa). É assim que compreendo a mensagem atribuída a Jesus – um caminho de compaixão absoluta, aqui e agora. Para mim, é assim que Jesus nos salva – apontando para a necessidade de uma interdependência e de uma religação entre cada um de nós, já que perdão e compaixão dependem da presença do outro [o que torna a fé cristã algo que só pode ser posto em prática em nossa relação com as pessoas, com absolutamente todas elas!].

+Gibson

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma resposta à amiga Sarah


Olá Sarah!


Bem, duma certa forma, já respondi a essa mesma questão sobre veracidade da Bíblia em diferentes ocasiões aqui, e meu pensamento continua a ser basicamente o mesmo nessa questão. Não posso pensar numa resposta a essa questão sem fazer outras perguntas para decidir o que é essencial e relevante nas Escrituras para minha relação com Deus. A primeira pergunta a fazer, talvez, seja “O que é a Bíblia, afinal de contas?” – a resposta que dou a essa pergunta definirá a resposta que darei à sua questão. Se a resposta for algo como “A Bíblia é a Palavra literal de Deus, e não humana, infalível, sem erros, inquestionável” etc, então fim de história; não posso tentar descobrir diferentes níveis de sentido em suas palavras; ponto final. Claro que, se assim pensasse, estaria ignorando tudo o que sei sobre a forma como o mundo e a sociedade funcionam, sobre a mente humana, sobre as leis da física, sobre a história de Israel e da Igreja etc. Essa, obviamente, não é a resposta que eu ofereceria a essa pergunta!

A Bíblia é, em minha compreensão, um livro humano (na verdade, um conjunto de livros), escrito por seres humanos, e que se tornou sagrado por meio dum processo de canonização. A Bíblia não nasceu como Escritura Sagrada, ela foi tornada sagrada por meio dum longo processo que demorou séculos. A história da Igreja cristã mostra como esse processo foi complexo e quão ligado ele está àquilo que costumamos chamar de “tradição” – por isso, podemos dizer que a Bíblia é, na verdade, um produto da tradição de duas comunidades distintas, a antiga Israel e a Igreja. A complexidade reside, parcialmente, no fato de que essas duas tradições são múltiplas; por exemplo, no caso da Igreja cristã, não havia no início da história da Igreja (como não há hoje) uma forma única de ser cristão nem uma concordância absoluta sobre todos os pontos doutrinários da tradição. Assim, Jesus, por exemplo, foi compreendido de diferentes formas – i.e., quando os cristãos ouviam (sim, porque a maioria deles não liam, mas ouviam!) os relatos de determinado Evangelho que era lido em sua comunidade (nem todas as comunidades tinham acesso a todos os Evangelhos que hoje chamamos de canônicos), esse relato podia ser compreendido de diferentes formas, a depender do pensamento preponderante naquele meio. Só após o Cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano é que surge a preocupação com uniformidade de crenças – já que para que se tornasse um braço do Estado romano, era importante que a Igreja apresentasse-se de uma única forma. Após séculos e séculos de toda a construção duma tradição de leitura, parece ser anormal que determinados relatos das Escrituras sejam lidos de maneira diferente daquela estabelecida pela tradição “católica” (com este termo não me refiro apenas ao Catolicismo Romano, mas ao pensamento cristão dominante no Ocidente).

Na história da Igreja se desenvolveram diferentes formas ortodoxas de interpretação das Escrituras – tradições hermenêuticas que, conjuntamente, ainda são reconhecidas pelas grandes famílias cristãs (católicos romanos e orientais, e protestantes). Tradicionalmente, na Igreja Oriental, existiam duas grandes tradições, uma centrada numa interpretação literal que apelava ao sentido alegórico das Escrituras (chamada de Escola Alexandrina de exegese bíblica – cujos membros incluíam Clemente e Orígenes, por exemplo); e outra que apelava ao contexto histórico para interpretá-las (chamada de Escola Antioquina de exegese bíblica – Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo, eram parte dessa tradição). Ademais, podemos pensar em três tradições de interpretação das Escrituras na Igreja Ocidental: 1) A do Bispo de Milão, Ambrósio, que desenvolveu uma compreensão tripla do sentido das Escrituras → um sentido natural, um sentido moral, e um sentido racional; 2) A de Agostinho de Hipona, que defendeu uma compreensão dupla do sentido das Escrituras → um sentido histórico, e um sentido espiritual; e 3) a Quadriga, que foi o método interpretativo padrão no Ocidente, durante a Idade Média, e buscava quatro sentidos básicos nos textos das Escrituras → um sentido literal, um sentido alegórico, um sentido moral (tropológico), e um sentido anagógico (um sentido que nos conduza a Deus). [A Igreja Católica Romana, por exemplo, em seu Catecismo oficial, faz uso de todos esses elementos em sua interpretação das Escrituras – veja mais em: CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola; Paulinas; Ave-Maria; Paulus; 1998. p. 41-42.)

Minha maneira de interpretar as Escrituras se ancora numa combinação de todas essas tradições. Assim, busco um sentido metafórico (mais que real) nas Escrituras, tendo como guia a compreensão do contexto histórico de seus textos, e desses na Igreja cristã. Como sou um homem que vive no mundo moderno, que é influenciado pela ciência e pela filosofia de minha própria época – e não pela filosofia do mundo grego antigo, como os primeiros cristãos –, então é mais que normal que minha leitura esteja condicionada por meu próprio contexto histórico. E mais, nesse processo de interpretação, entra minha experiência pessoal no mundo real – o que chamo de senso comum. É a combinação de tudo isso que me leva a entender as narrativas bíblicas duma forma que pode ser muito diferente daquela dos primeiros cristãos, por exemplo – muito provavelmente, diferente da leitura que o próprio Jesus fazia… É uma questão de escolha, uma questão de integridade intelectual – e, consequentemente, moral!

Não pense que isso seja fácil. Não é. Se prestar atenção, isso faz com que eu rejeite certos conceitos que outros cristãos fiéis – talvez a maioria deles – julgam imprescindíveis. Enquanto acredito na possibilidade da permanência de muitas verdades, outras, para mim, são temporárias e secundárias, já que estão condicionadas a determinadas experiências históricas. Como conciliar, por exemplo, o papel atribuído por Jesus – ao menos, de acordo com os Evangelhos – às mulheres com aquele a elas atribuído supostamente pelo apóstolo Paulo? Nos relatos sobre Jesus, as mulheres estão no centro – ele quebra todas as regras sobre a separação entre homens e mulheres –, mas, para Paulo, as mulheres deveriam continuar em seu papel de submissão à autoridade masculina. Como lidar com este problema? Os dois relatos não podem ser vistos como sendo absolutamente “verdadeiros”, já que se contradizem!… Minha resposta: a única solução é entender qual seja a mensagem básica do Evangelho, e, a partir daí, decidir o que se encaixa nessa visão, e o que é apenas tradição cultural – pode soar muito herético para aqueles que se declaram “cristãos bíblicos”, por exemplo, mas eles mesmos fazem isso de sua própria forma (na verdade, todos nós o fazemos o tempo todo!).

Para esclarecer o que penso sobre a maneira como Jesus compreendia Deus e sua relação com o Divino, deixe-me afirmar que Jesus era um judeu. Como judeu, Jesus provavelmente compreendia Deus de diferentes formas, dependendo do momento – já que sua tradição de fé não possuía uma declaração teológica como os credos cristãos, definindo Deus de forma objetiva. Deus era uma Realidade que podia ser definida de forma positiva quanto negativa – ou seja, Deus era e Deus não era etc. Eu discordo que a visão que Jesus tinha de Deus fosse “teísta”, já que essa visão (quando historicamente definida) emerge apenas a partir do encontro do movimento de Jesus com o pensamento grego. Para que Jesus fosse um teísta, ele teria que possuir uma visão objetiva de Deus como algo que pudesse ser quase que matematicamente definido – e isso não surge até mais tarde. O que podemos afirmar é que Jesus certamente possuía uma visão de Deus como uma Realidade pessoal, e mais que pessoal – mas dizer isso não é o mesmo que dizer que ele fosse um teísta!

Essas questões dogmáticas não geram constrangimento entre nós unitaristas, pois a maioria de nós – ou pelo menos dos ministros unitaristas – as tratariam da forma como as estou tratando com você agora: sem oferecer uma definição objetiva em nome de todos! Assim, posso dizer a você: sim, Deus, Jesus, ressurreição, vida eterna etc, são temas importantes para mim – só que, aceito que diferentes pessoas compreendam esses temas de diferentes formas, desde que sua conclusão seja dirigida pelos princípios que julgo indispensáveis ao Evangelho, e que resumo com uma frase em latim – sola caritas (só a compaixão, a caridade, o amor). Isso porque os Evangelhos e as demais Escrituras ensinam que Deus é amor e que somos chamados a amar, então esse amor deve ser o padrão de minha compreensão da mensagem de Cristo; não o “amor” enquanto uma palavrinha da moda para mostrar o quão legal sou, mas o amor enquanto uma força de transformação de mim mesmo e do mundo ao meu redor – um amor que deve se manifestar em como trato o próximo, cuido do planeta, respeito aos diferentes de mim, recebo meus inimigos à minha mesa, voto em meus representantes, cumprimento aos estranhos etc; é uma forma dolorosa e desconfortável de ler a Bíblia e a tradição cristã.

Isso é enfatizar só aquilo que me convém?! É claro que é! Acredito e tento praticar essas coisas, leio as Escrituras e a tradição dessa forma porque, de certa forma, isso é conveniente. Da mesma forma como é, em algum nível, conveniente para todas aquelas pessoas que acreditam em outras coisas acreditarem naquilo! Como vivemos numa sociedade na qual somos livres para escolher nossa religião, escolhemos aquilo que nos é conveniente! Isso não desacredita minha fé mais do que desacreditaria a fé de nenhuma outra pessoa, já que todas elas – mesmo que não estejam plenamente cientes disso – escolherem a tradição onde, pelo menos, se sentiam mais satisfeitas (e isso, em si, já é uma forma de conveniência!). Mas, se escolho um caminho no qual a mulher e o homem, o heterossexual e o gay, terão acesso a Deus da mesma forma; se escolho uma tradição na qual minha visão científica não tenha de ficar do lado de fora, quando atravesso as portas da igreja, sendo forçado a fingir que acredito em outra coisa e não sendo íntegro comigo mesmo e com os outros, esta é uma questão de fé pessoal – é assim que experiencio Deus!

Poderia, talvez, escolher falar aqui sobre minhas crenças pessoais sobre ressurreição, Deus, a natureza de Jesus etc. Entretanto, a não ser que esteja em discussões teológicas muito específicas, escolho não o fazer, porque julgo ser esse tipo de discussão irrelevante para mim. Concordo quando você diz, por exemplo, que o mesmo Paulo que fala sobre amor, fala sobre ressurreição – mas, para este mesmo Paulo (isso se eu acreditasse que os autores de todas as cartas que levaram seu nome fosse a mesma pessoa!), diferentemente de Jesus, eu sequer poderia estar trocando mensagens com uma mulher! Então, como pode ver, é realmente uma questão de se fazer escolhas!

Como poderia te ajudar se me recuso a dar uma resposta sobre o que é “verdadeiro” ou não nas Escrituras? [Já discuti várias vezes neste blog o sentido que dou ao termo “verdade”: em se tratando de minha fé, o termo não é sinônimo de factualidade!] Não sei. Penso que a única pessoa que pode construir uma resposta que lhe seja satisfatória é você mesma: você tem de fazer escolhas que levem em consideração sua relação com o Divino, a pessoa que você é, a maneira como compreende o mundo, sua experiência de vida etc. Só assim você descobrirá o que é verdade, e, talvez, poderá descobrir que a verdade é algo que toma diferentes formas em diferentes momentos da vida, dependendo de um sem número de razões. Eu continuarei aqui, orando para que você possa alcançar esta “verdade”, mas não serei presunçoso a ponto de pensar que possa dizer a você – ou a quem quer que seja – o que é a “verdade” válida para todos, em todos os tempos, em todos os lugares.

Bençãos! Espero que possamos continuar nossas conversas e, quem sabe, um dia vê-la em pessoa!

+Gibson

terça-feira, 2 de abril de 2013

Cristianismo... ainda relevante?


Numa conversa muito agradável com um grupo de jovens universitários – i.e., pessoas mais jovens que eu –, ouvi as inquietações que frequentemente abatem a confiança que esses têm em sua tradição de fé. Na visão daqueles meus amigos, seria difícil confiar numa instituição religiosa – i.e., na igreja – que estaria associada a tudo aquilo que aprenderam ou experienciaram ser opressivo ou corrupto; assim como seria impossível acreditar em fórmulas de fé que contradizia o que conheciam sobre o mundo. Para eles, o que compreendiam ser a fé cristã tornara-se irrelevante.

Aquele tipo de inquietação não me é estranha. Em primeiro lugar, não estou tão distante assim da idade daqueles meus amigos – que estão entre os vinte e os vinte e cinco anos de idade, e eu em meus trinta e quatro –, logo, posso lembrar-me claramente das transformações psíquicas e intelectuais pelas quais passamos àquela altura da vida, quando estamos nos aventurando nas correntes de novos conhecimentos, novas experiências de vida e novas escolhas que nos marcarão profundamente. Ademais, lido constantemente com os relatos de experiências semelhantes na vida de outros jovens com os quais converso ou me correspondo. Assim, estou sendo plenamente honesto quando lhes digo que não estão sozinhos quando passam por aquelas correntezas de sentimentos de dúvidas e incertezas. Esses sentimentos são naturais e, acredito, necessários ao nosso crescimento intelectual e espiritual; e, mais importante, não são nada de que tenham de se envergonhar.

Para que eu seja o mais direto e objetivo possível, deixem-me declarar que confio plenamente na relevância da fé cristã para nosso mundo. O Cristianismo oferece uma narrativa do sagrado que tem moldado positivamente a vida de milhões de pessoas há pelo menos dois milênios – que continua a oferecer uma jornada espiritual a incontáveis pessoas no mundo contemporâneo. O Cristianismo tem me oferecido uma narrativa do sagrado capaz de construir uma corrente de relações entre minha vida e o Divino, oferecendo-me uma interpretação vivificante para a realidade que experiencio. Em termos mais seculares, por exemplo, é fácil esquecermos que nossas instituições ocidentais de direitos humanos, cidadania, liberdade etc, emergem dum imaginário judaico-cristão. O sentimento anticlerical da modernidade fez com que, ingenuamente(?), desassociássemos essas instituições da herança greco-romana-abraâmica na qual foram moldadas. Ouso supor que aqueles traços “ocidentais” só vieram à tona da forma e no tempo no qual passaram a existir por haverem emergido em sociedades cristãs – o que teria ocorrido não tivesse o Cristianismo se casado com o pensamento greco-romano no mundo Mediterrâneo, e vice-versa? O cinismo característico de nossa atitude intelectual moderna se nega a reconhecer essas associações, mas elas estão lá!

Penso que o problema que alguns de nós encontramos para achar sentido no Cristianismo, ou em qualquer uma das outras duas tradições jordânicas – i.e., o Judaísmo e o Islã –, é o de termos sido “treinados” para associar a fé a crenças dogmáticas e a definições objetivas duma suposta realidade teológica. Acostumamo-nos a declarações como “Deus disse”, “a verdade é”, “só Jesus salva” etc, mas não a descobrir novos níveis de sentido para essas declarações. “Deus” torna-se um problema, então, não porque Deus seja um problema, mas simplesmente porque fomos treinados a compreender o Divino como se fora um rei absolutista ou uma equação matemática. A “verdade”, nesse sentido que aprendemos a dar ao Cristianismo, é algo que pode ser equacionado, metrificado, verificado, quantificado – é, enfim, um absoluto. Então, se minha experiência me leva a compreensões que contradigam essa “verdade”, Deus e, consequentemente, o Cristianismo deixam de fazer sentido e tornam-se irrelevantes.

A coisa mais relevante sobre a tradição cristã é que ela, na verdade, são várias tradições. Não há algo que possamos chamar de Cristianismo único – para mim, há Cristianismos, no plural. Com isso quero dizer que há várias maneiras diferentes de compreender a mensagem cristã, e que nós, cristãos, podemos experienciar algo como aquilo sobre o qual fala Brian McLaren, em seu “A Generous Oxthodoxy”, quando aponta diferentes perspectivas em diferentes tradições cristãs que formam seu eu cristão pessoal. Em minha experiência Unitarista-Anglicana-Luterana (não necessariamente nesta ordem sempre), com a forte presença judaica, consigo uma latitude interpretativa maior para minha própria vida. Posso reler a narrativa cristã a partir de diferentes posições no espectro teológico, enxergando Deus duma perspectiva nova, descobrindo um novo nível de sentido para uma declaração atribuída a Jesus ou a um dos apóstolos, por exemplo. Assim, não são os detalhes minuciosos que passam a ter relevância, mas a Realidade para a qual a metáfora aponta: por exemplo, não faz diferença se Jesus ressuscitou a um homem morto, mas sim a cadeia de sentido que está por trás desse relato etc.

O Cristianismo é relevante para mim por ser um testemunho do caminho da Compaixão. Esse caminho é o que tenho chamado de sola caritas – o amor, a caridade, a compaixão é o único caminho que nos leva a Deus. Dizemos que Jesus é esse caminho porque ele nos aponta – na verdade, exige que sigamos – o caminho da Compaixão; assim, seguir a Jesus é seguir o caminho que ele percorreu: é viver pela presença do Divino aqui e agora, é ser essa presença para outras pessoas. Para mim, não outra mensagem mais relevante que essa, já que seu chamado não é para que eu largue minhas dúvidas ou inseguranças, mas sim, para que eu faça, para que eu ame, para que eu “caminhe”.

Não posso definir Deus. Não consigo encontrar uma maneira suficientemente ampla para falar sobre essa Realidade dentro da qual tenho minha existência. Também não consigo estar sempre acima da dúvida e dos questionamentos, quando presencio o sofrimento e a dor daqueles que amo e minhas próprias. Mas escolho pensar que se há verdade, essa tem de se materializar em nosso dia a dia, por isso – como me ensinou um sábio mestre –, tenho de trazer Deus para dentro da realidade do mundo (não necessariamente Deus como um ser, mas Deus como a compaixão ensinada pelo rabino galileu). O mandamento de “restaurar o mundo” – e a vida daqueles cristãos celebrados como santos é um exemplo disso – torna-se o padrão por meio do qual avalio o valor da mensagem cristã; uma mensagem que escolho interpretar como um caminho, um modo de vida.

Tenho certeza que vocês também podem encontrar uma forma de o Cristianismo ser relevante em suas vidas, ao mesmo tempo em que conseguem se manter intelectualmente íntegros.

+Gibson

sexta-feira, 29 de março de 2013

O hip-hop tem algo a dizer nesta páscoa?… Pergunte a Macklemore o que ele pensa!


O amor é paciente, o amor é benigno; […] não procura seu próprio interesse, […] não se alegra com a injustiça […]." (1 Coríntios 13:4-8)

Nenhuma forma melhor de atravessar dias sagrados do que refletir sobre uma das coisas mais sagradas em minha vida… sim, a música… a música que acende a chama da esperança por liberdade, vida e iluminação… a música – minha Terra Prometida, meu Céu, minha Terra Pura.

Meu artista de hoje é um dos rappers que mais admiro, apesar de não muito conhecido no Brasil, o brilhante Macklemore (nome artístico de Ben Haggerty) – que costumo chamar de “lyrical bomb”, por seu brilhantismo e sofisticação poética. O álbum do qual vem a canção de hoje, chamado “The Heist”, de 2012 – produzido por Ryan Lewis – é uma obra-prima do hip-hop; e a canção, “Same Love”, uma das mais maturas e belas afirmações humanas e políticas dos últimos anos, enriquece, de forma inesperada, a história do hip-hop. Quem poderia esperar a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo por um rapper?… Só Macklemore e Ryan Lewis conseguiriam criar tanta agitação!

O contexto da canção encontra-se no R-74 (Referendo 74) do Estado de Washington, nos EUA. A intenção do R-74 era aceitar ou rejeitar a lei estadual de fevereiro de 2012 que legalizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A canção de Macklemore, produzida por Ryan Lewis, e com a participação de Mary Lambert, oferecia uma justificação para o “sim”. O mesmo Macklemore, que já tratara de tantos temas polêmicos antes (exploração sexual, drogas, suicídio etc), adentrava agora um território muito sensível para a sensibilidade majoritariamente machista e preconceituosa do hip-hop. Uma declaração de amor ao hip-hop como instrumento de libertação e como voz de resistência ao preconceito. Uma declaração de respeito ao ser humano. Amo esta canção por inúmeras razões, especialmente pelo que ela representa à relevância da cultura de massa nos Estados Unidos. Mais um ponto para um cara que eu já ouvia há alguns anos!… Ah, sim… no referendo, o “sim” foi vencedor!

Mas, vamos ao que interessa:

SAME LOVE (O MESMO AMOR) – Macklemore (com Mary Lambert)

[Macklemore:]
Quando estava na terceira série
Pensei que era gay
Porque podia desenhar, meu tio era
E eu mantinha meu quarto arrumado
Contei à minha mãe,
Lágrimas escorrendo pelo meu rosto
Ela disse: “Ben, você gosta de garotas desde a pré-escola”
Um tropeção!, eu sei, acho que ela tinha razão, né?
Um monte de esteriótipos em minha cabeça
Lembro-me de pensar assim
“É, sou bom em esportes”
Uma ideia preconcebida do que significavam
As características que todos aqueles que gostam do mesmo sexo tinham
Os conservadores de direita pensam que é uma decisão
E que você pode ser curado com tratamento e religião
Humano, a religação duma predisposição
Brincando de Deus
Ah não, vamos lá
Os Estados Unidos, o valente
Ainda tem medo, do quê?, não sabemos
E “Deus ama a todos os Seus filhos”
De alguma forma é esquecido
Mas parafraseamos um livro escrito
Há 3.500 anos atrás
Não sei

[Mary Lambert:]
E eu não posso mudar
Mesmo que tentasse
Mesmo que eu quisesse
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tentasse
Mesmo que eu quisesse
Meu amor, meu amor, meu amor
Ela me mantém aquecida… [4 x]

[Macklemore:]
Se eu fosse gay
Pensaria que o hip-hop me odeia
Você leu os comentários no YouTube recentemente?
“Cara, isso é gay!”
Ouvimos isso todo dia
Nos tornamos tão insensíveis ao que dizemos
Nossa cultura surgida como resistência à opressão
É, não os aceitamos
Chamando uns aos outros de “veado”
Por trás dos teclados duma placa de mensagens
Uma palavra envolta em ódio
Ainda assim, nosso gênero ignora isso
Gay é um sinônimo para o que há de mais baixo
É o mesmo ódio que causou guerras religiosas
De gênero e de cor da pele
A cor de teu pigmento
A mesma luta que levou pessoas a protestos
Direitos humanos para todos
Não há diferença
Viva e seja você mesmo!
Quando estava na igreja,
Me ensinaram algo diferente
Se você pregar ódio no púlpito
As palavras não serão ungidas
E a água benta
Na qual você se ensopa
É envenenada
Quando todos os outros
Estão mais confortáveis
Ficando calados
Em vez de lutarem pelos humanos
Que tiveram seus direitos roubados
Posso não ser mais o mesmo
Mas isso não importa
Nenhuma liberdade até que sejamos iguais
É isso aí, eu apoio
Não sei

[Mary Lambert:]
E eu não posso mudar
Mesmo que tentasse
Mesmo que eu quisesse
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tentasse
Mesmo que eu quisesse
Meu amor, meu amor, meu amor
Ela me mantém aquecida… [4 x]

[Macklemore:]
Apertamos “Play”
Não aperte “Pause”
Progresso, adiante!
Com um véu sobre nossos olhos
Viramos as costas à causa
Até o dia
Em que meus tios possam ser unidos pela lei
Crianças correndo pelo corredor
Atormentados pela dor em seu coração
Um mundo tão cheio de ódio
Alguém preferiria morrer
Do que ser quem é
E uma certidão num papel
Não vai mudar isso
Mas é um ótimo lugar no qual começar
Nenhuma lei nos mudará
Nós é que temos de nos transformar
Seja qual for o deus em que você acredita
Viemos do mesmo
Liberte-se do medo
Lá no fundo é o mesmo amor
Já está na hora

[Mary Lambert:]
E eu não posso mudar
Mesmo que tentasse
Mesmo que eu quisesse
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tentasse
Mesmo que eu quisesse
Meu amor, meu amor, meu amor
Ela me mantém aquecida… [4 x]

[Mary Lambert:]
O amor é paciente, o amor é benigno
O amor é paciente (sem choros aos domingos)
O amor é benigno (sem choros aos domingos) [5 x]


quarta-feira, 27 de março de 2013

O mito da busca espiritual por Liberdade: uma mensagem pascoal


O mito pascoal sempre me fascinou. A beleza da narrativa, os símbolos, o sentido a eles atribuídos pelos diferentes leitores … tudo isso tem sempre falado à minha sensibilidade e imaginação – mais especialmente, talvez, por eu estar envolto em duas diferentes narrativas: a judaica e a cristã.

Da tradição judaica emerge o sentido de passagem do cativeiro à liberdade, do Êxodo à Terra Prometida. A metáfora do Pessah está tão presente em minha imaginação, que torna-se indelével de minha própria história. Ela guia e molda minha visão de mundo, minha compreensão filosófica, minha busca por “liberdade”, e minha esperança política. Como confio na realidade de Deus, essa passagem, essa busca, é um encontro com o Divino dentro do qual vivo, me movo e existo; e a narrativa tradicional do Pessah é um lembrete de que a liberdade está dentro de nosso alcance, mesmo que para atingi-la, tenhamos de atravessar as profundezas dos mares.

Da tradição cristã emerge o chamado à morte e à ressurreição. A metáfora do morrer e voltar a viver por meio da confiança e do abandono daquilo que nos acorrentava ao passado, a renúncia ao império da servidão – que, muitas vezes, está dentro de nós mesmos. Essa metáfora, que, para mim, está diretamente associada à narrativa sobre a morte e a ressurreição de Jesus, está tão presente em minha imaginação que é como se fora minha própria história. Como confio na mensagem de Cristo, essa morte e ressurreição, às quais essa mensagem me chama, é um lembrete de que a transformação de meu interior é um processo relacional contínuo de religação com o Divino, e um testemunho de que “nem mesmo a morte” pode nos separar do “amor de Deus”.

O interessante é que as tradições judaica e cristã não esgotam essa busca por liberdade e renascimento. Essas são buscas humanas, buscas comuns às mais diferentes tradições de fé. Se Moisés, por exemplo, lidera os israelitas através do deserto e do Mar Vermelho para alcançarem sua liberdade; e se, posteriormente, Jesus torna-se “o Caminho” que nos indica a jornada da morte à ressurreição, do cativeiro interior à deificação do nosso eu, também encontramos outros exemplos em outras tradições de fé.

O Buda, por exemplo, nos convida a seguirmos o Nobre Caminho que nos conduz à Terra Pura. O Nobre Caminho da “via media”, da renúncia aos extremos. O sentir correto, a fala correta, o comportamento correto, o viver correto, o esforço correto, a atenção correta e a concentração espiritual correta. Para ele, esse caminho nos leva à Iluminação – que é o equivalente budista à liberdade judaica e à vida cristã. A Iluminação, por outro lado, é dependente da ilusão e da ignorância, já que só pode existir por aquelas outras duas existirem, e vice-versa – se uma delas deixar de existir, as outras também cessarão. E quando alcançarmos a Iluminação, perceberemos que tudo contém, em si mesmo, uma Iluminação. É uma bela metáfora da busca por liberdade.

O profeta Muhammad, por exemplo, ensinou que a submissão a Deus é o caminho para essa liberdade. Assim, para a tradição islâmica, a fé deve ser afirmada pela língua, pelo coração e pelas ações. Nossa submissão a Deus é afirmada nas pequenas ações que realizamos no dia a dia: dos atos de adoração a Deus à maneira como cumprimentamos os estranhos na rua. A submissão a Deus é, para o profeta do Islã, o único caminho para a liberdade e a vida.

Com diferentes termos e conceitos, essas tradições nos ensinam o quanto nossa busca espiritual por liberdade – e não apenas a busca por liberdade espiritual – é essencial para a experiência humana. Nem sempre ela tomará um caminho religioso, já que podemos testemunhá-la também nas inúmeras empreitadas artísticas e filosóficas da humanidade, mas o que importa é que ela testifica o quanto “ser livre” é essencial para o nosso imaginário.

Como um cristão, penso que a Páscoa seja um tempo magnífico para refletir sobre essa busca por liberdade. E, mais especificamente, como um unitarista, escolho combinar esses diferentes conceitos religiosos de Liberdade, Vida e Iluminação em minha própria busca espiritual, modelando um sentido para a Páscoa que fale a todos os aspectos de minha vida.

Junto minha voz àquela de todos os cristãos, em todas as eras – independentemente de quão diferentes sejam nossas interpretações dessas palavras –, dizendo:

“Aleluia. Cristo ressuscitou!”

Pois, como nós unitaristas rezamos ao fim de nossas celebrações eucarísticas:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”

Feliz Páscoa a todos!

+Gibson

segunda-feira, 25 de março de 2013

Homossexualidade no piegas e desinformado discurso sobre “o mundo, o pecado, e o Diabo”!


Sempre evito, o quanto posso, entrar nas discussões idiotas sobre homossexualidade que viraram uma “darling” nos meios cristãos brasileiros nos últimos anos. E isso por inúmeras razões. A primeira delas, claro, é que sou um homem gay, e tenho uma ética teológica que dirige meu ministério. Em segundo lugar, sou um Unitarista, e, assim, minhas prioridades e compreensões religiosas, assim como minha compreensão de “moralidade”, entram em contradição sonora com aquelas da maioria dos cristãos brasileiros que têm espaço nos meios de comunicação e no palco político. Ademais, minhas crenças políticas e minha cultura pessoal geralmente são muito distintas daquelas abraçadas pela maioria daqueles nos dois lados do embate político quanto ao tema no país. Logo, a não ser que o tema seja trazido à minha atenção, por alguma razão, nunca trato disso em meus escritos públicos – a não ser pelo fato de que pesquiso a história do pensamento teológico sobre sexualidade na tradição cristã, o que me faz lidar continuamente com o questões sobre homossexualidade [o que é muitíssimo natural em meu trabalho como teólogo].

Religiosamente, sou um protestante liberal – um Unitarista também ligado à Igreja Episcopal e à Igreja Unida de Cristo [para os que desconhecem, esses são bastiões da tradição teológica liberal nos EUA]. É importante afirmar isso para que compreendam de onde vem minha formação teológica, de onde vem minha compreensão sobre ética cristã. Cristãos como eu não abraçam injunções absolutas sobre certos comportamentos – por exemplo, beber, fumar, dançar não são comportamentos proibidos em nosso meio, como ocorre com certos grupos majoritários no meio protestante brasileiro. Acreditamos que a obsessão com esses costumes sociais é produto daquilo que nos EUA é chamado de “igreja da fronteira”i e que tal obsessão prescritiva não possua base nem nas Escrituras nem na tradição cristã em geral. Acreditamos que todas as coisas venham de Deus e que, assim, são boas – mas que devam ser usadas com responsabilidade e sabedoria: ou seja, devam ser consistentes com nosso chamado a fazer o bem ao próximo, à criação e a nós mesmos. Qualquer coisa boa, quando abusada [quando usada sem cuidado e sem sabedoria], pode tornar-se algo mau, e é por essa razão que o mandamento de amar [a Deus, ao próximo e a nós mesmos] é o princípio que deve guiar nossas relações com o todo da criação – talvez isso seja uma boa forma de resumir nossa compreensão sobre moralidade.

Como isso se relaciona com a questão da homossexualidade? Ou melhor, como já me foi perguntado antes por um amigo: “Como cristãos de diferentes grupos, que afirmam honrar as mesmas Escrituras, podem chegar a conclusões tão diferentes sobre questões de moralidade sexual?” [A questão tratada entre meu amigo e eu era a celebração do casamento – religioso – entre duas pessoas do mesmo sexo em minha comunidade de fé, no qual um dos pares era um ex-membro de sua comunidade de fé.]

Falando sobre minha compreensão teológica particular, talvez partilhada pela maioria de outros membros de minha comunidade de fé, esta está fundamentada sobre a tradição bíblica, apesar de eu utilizar diferentes princípios hermenêuticos daqueles utilizados por outras tradições cristãs. Há uma clara diferença interpretativa entre a forma como um cristão liberal como eu e um “evangélico”, por exemplo, interpretamos as Escrituras. Em minha tradição, damos à experiência [individual e comunitária] uma importante função no processo exegético e hermenêutico – o que permite que desafiemos, reinterpretemos e abandonemos certas passagens bíblicas como produtos culturalmente condicionados ou mesmo irrelevantes. Comumente, refletimos teologicamente sobre certas questões, começando pela experiência da situação sobre a qual refletimos [por exemplo, a questão de casamentos de pessoas do mesmo sexo na igreja], depois discutindo as Escrituras [i.e., a Bíblia] mais em termos de sua totalidade do que de trechos isolados – as tradições “evangélicas” majoritárias no Brasil, entretanto, começam seu processo interpretativo pelas Escrituras, rejeitando [no caso específico da presença de pessoas gays na igreja] o papel da experiência nesse processo.

A posição teológica em minha tradição é, em parte, moldada pela presença de pessoas de orientação emociono-sexual gay no processo de discernimento da Escritura, enquanto que no caso das chamadas “igrejas evangélicas” essa presença está, na maioria das vezes, plenamente ausente. Entre os membros de minha igreja local, por exemplo, há indivíduos gays e lésbicas – inclusive no Ministério, no meu caso –, e suas famílias, o que faz com que nossa experiência como indivíduos e como fiéis, e a experiência de nossa comunidade conosco, seja parte integrante do processo de discernimento teológico. Aqueles de nós que têm relacionamentos românticos, por exemplo, encontram nos demais membros da comunidade testemunhas para sua vida – ou seja, em nossa comunidade de fé, um casal homossexual encontrará amigos que os tratarão com o mesmo respeito devido a um casal heterossexual. A vivência entre pessoas de diferentes experiências faz, consequentemente, com que elas se vejam de forma mais respeitosa, compreensiva e apreciativa. Como me disse um membro de minha comunidade de fé, após a celebração do casamento que citei anteriormente: “Como poderia ser contra a união de duas pessoas que conheço há tanto tempo e cujo amor vi crescer”. A experiência faz toda a diferença: a experiência dos indivíduos e a experiência de sua comunidade – é uma via de mão dupla!

A questão das relações entre pessoas do mesmo sexo não envolve apenas a questão de relações sexuais. O problema da incompreensão, em minha visão, vem em parte da desumanização da questão. Quando se fala em pessoas gays, por exemplo, utilizamos o infeliz termo “homossexual”, que em si parece trazer a miopia para o fato de que o lado sexual não é o único aspecto numa relação entre pessoas do mesmo sexo – há um lado emocional nessa questão, da mesma forma como quando falamos de pessoas utilizando o também infeliz termo “heterossexual”. Somos todos seres sexuais, mas esse não é o nosso único aspecto como pessoas – também somos pessoas que amamos, tememos, sofremos, nos alegramos, cremos, descremos, trabalhamos, aprendemos, desaprendemos, sorrimos, choramos etc [todos nós, “heterossexuais” ou “homossexuais”]. Em nossa experiência religiosa, por exemplo, todas as pessoas podem experienciar o mesmo Mistério Divino, e são chamadas ao serviço da mesma forma – independentemente de como se identificam, de quem amam e de por quem são amadas. Esse lado humano pleno – de ver “homossexuais” como pessoas que tem vidas familiares, profissionais (professores, médicos, pesquisadores, políticos, engenheiros, policiais etc, e não apenas como aquelas figuras estereotípicas as quais culturalmente somos acostumados), religiosas etc – entretanto, parece ser ignorado tanto pela mídia quanto pelo próprio chamado “movimento gay”, quando sexualizam o sentido de ser gay [é só ver a maneira como gays são comumente exibidos na mídia, ou pior, como “vendem sua imagem” nas chamadas “paradas” da diversidade] para a visão pública, o que consiste num infeliz equívoco constantemente repetido em nossa sociedade.

Em minha experiência, já está mais do que na hora de mudarem o foco quando abordarem teológica, política e culturalmente a realidade dos indivíduos gays e de suas famílias. Em nome do bom senso, olhem pare seus filhos e filhas, amigos e amigas, vizinhos e vizinhas. Somos muito mais do que insinuam as novelas televisivas, os discursos políticos ou certas pregações religiosas. Assim como a teologia cristã é muito mais ampla do que o discurso biblicista pode sugerir. É tudo uma questão de boa vontade para percebermos a variedade. Então, quando quiserem ter um diálogo teológico que inclua as vozes de pessoas como eu, quem sabe não estarei disposto a participar?!

+Gibson


iAs comunidades de fé que se formaram nas áreas de fronteira interiorana norte-americanas desenvolveram uma visão estrita sobre moralidade na qual certos hábitos sociais aceitos nos meios cristãos urbanos – a exemplo da bebida, do fumo, da dança, do jogo de cartas etc – foram vistos como pecaminosos. Essa visão foi trazida por missionários “evangélicos” advindos dessas tradições protestantes norte-americanas que, apesar de lá sempre terem sido minoritárias, aqui no Brasil sempre terem sido majoritárias – logo, a associação automática de Protestantismo, no Brasil, com essas injunções “morais”.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma fé reparadora de brechas e restauradora de ruínas


O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. Se você fizer isso, a sua luz brilhará como a aurora, suas feridas sararão rapidamente, a justiça que você pratica irá à sua frente e a glória do Senhor acompanhará você. Então você clamará, e o Senhor responderá; você pedirá socorro, e o Senhor responderá: “Estou aqui!” Isso se você tirar do seu meio o jugo, o gesto que ameaça e a linguagem injuriosa; se você der o seu pão ao faminto e matar a fome do oprimido. Então a sua luz brilhará nas trevas e a escuridão será para você como a claridade do meio-dia; o Senhor será sempre o seu guia e lhe dará fartura até mesmo em terra deserta; ele fortificará seus ossos e você será como jardim irrigado, qual mina borbulhante, onde nunca falta água; as suas ruínas antigas serão reconstruídas, você levantará paredes em cima dos alicerces de tempos passados. Vão chamá-lo reparador de brechas e restaurador de ruínas, onde se possa morar.” (Isaías 58:6-12)

Reconstruir, restaurar, reparar. Infelizmente, esses não são verbos que ouço em meus diálogos com a frequência que gostaria. Um dos verbos que mais ouvi nas últimas duas semanas foi “desconstruir”. Ele apareceu em conversas que tive com alunos, colegas, amigos, e em algumas leituras que fiz. Ele emergiu até mesmo em conversas que tive na igreja, com algumas pessoas. Tenho a impressão que há muita gente preocupada em desconstruir, demolir, certos conceitos, ideias, noções, crenças.

Honestamente, penso que essa obsessão da chamada pós-modernidade com o “desconstruir” é triste. Isso porque geralmente a demolição é a maior distância percorrida pelos desconstrutores. Eles se preocupam apenas em desconstruir conceitos, ideias, noções, crenças; não constroem nada.

Alguém, por exemplo, fala em desconstruir antigas noções religiosas, eliminando 'verdades' que integram os elementos formativos da fé de outros. Desconstrói – assim pensa – cada um dos pontos da visão de mundo de uma determinada tradição. Demole. Derruba. Põe abaixo. Mas não constrói nada significativo no lugar. Não edifica. Não ergue. Não erege. Não cria. E assim, torna sua proposta desconstrutora ainda mais vazia e insignificante do que a que intencionara substituir. É trágico!

Não, meus amigos – sim, vocês com quem conversei sobre “desconstruções” –. Nunca pensei estar desconstruindo nada, porque penso ser a desconstrução algo – metaforicamente falando – “bandido”. Como dizem as Escrituras cristãs, “o ladrão” é que vem para “matar, roubar, e destruir” (João 10:10) – e a “desconstrução é uma forma de destruição. Eu prefiro estar ao lado daqueles que constroem algo, que contribuem na edificação e na criação. Prefiro, se possível, ser chamado de “reparador de brechas e restaurador de ruínas, onde se possa morar”.

Pensemos em Deus, por exemplo – que foi o principal tópico das ideias de “desconstrução” de vocês. Não me interesso nem um pouco por desconstruções de noções do Divino. Diferentemente do que alguns possam pensar, não sou um ateu – mesmo que me recuse a identificar-me como um “teísta”. Na realidade, recuso-me a etiquetar minhas noções sobre Deus, pois penso que essas devam ser maleáveis e flexíveis. Como acredito na revelação contínua, no mover do Espírito, escolho estar suficientemente aberto para que Deus se revele a mim de diferentes formas, em diferentes momentos de minha vida.

As tradições judaico-cristãs que me formaram como um homo religiosus – i.e., suas Escrituras, liturgias, teologias, filosofias, mitos, memória religiosa etc – são o território no qual escolho construir edificações para minha própria relação com o Divino, com a criação e com os homens. Como um unitarista, obviamente, estou aberto ao diálogo com outras tradições, já que Deus, em minha compreensão, não é judeu, nem cristão, nem muçulmano, nem budista, nem hindu, nem espírita, ou membro de qualquer outra tradição de fé. Creio que o Espírito se move sobre a terra, igualmente, para qualquer um de nós; e é exatamente por essa razão que me recuso a abraçar qualquer 'verdade' humana como se fora a definitiva – e as tradições religiosas, para mim, são humanas: são respostas que nós damos ao mover do Espírito divino. Isso, entretanto, não significa que eu não acredite que haja 'verdade' – o que não acredito é que eu, ou qualquer outro, tenha a condição de definir uma verdade eterna por meio de uma linguagem falha e incompleta como a humana. Podemos nos aproximar linguisticamente de uma descrição de nossas relações com o Divino, mas nossa linguagem não é capaz de definir o Divino. Na realidade, mesmo se pudéssemos fazer uso de uma linguagem verbal divina, essa não poderia conter a Deus, pois se o fizesse, Deus seria menor que sua própria linguagem. Não posso definir Deus – dizendo algo como: Deus é bom, Deus é fiel, Deus é eterno etc – pois se o pudesse, Deus seria menor que minha linguagem e, consequentemente, menor que eu. Deus, para mim, não é, nunca foi, nem nunca será. Deus não pode estar limitado por verbos criados pelo homem – se assim fosse, Deus estaria limitado pelas paixões, dogmatismos, tribalismos, bairrismos, e todos os -ismos humanos, e não acredito que isso seja possível.

Já disse incontáveis vezes que não acredito em Deus. Me recuso a utilizar o verbo acreditar com o nome Deus. Isso porque não posso encarcerar o Divino em minhas limitadas noções teológicas, em minha linguagem limitada. A tradição cristã (e a judaica, e a islâmica etc) nos ensina a darmos voz à nossa crença por meio de outra linguagem que não a verbal. É como se ela dissesse: utilizem o verbo fazer e não crer! “Amem aos seus inimigos”, ela nos comanda, e não “Creiam em amar seus inimigos”! “Alimentem os famintos”, e não “Creiam que alimentar os famintos seja a coisa certa”. O amor é a única linguagem aceitável para definir Deus na tradição cristã. [E a construção é o produto do amor, e não a desconstrução.] Infelizmente, a obsessão com objetividade nos faz centrar a fé cristã mais em palavras do que em ações, e isso, para mim, é uma heresia.

Como demonstra esse trecho do livro do Profeta Isaías, nossas ações construtoras, reparadoras, restauradoras são mais importantes que os rituais e, para meu argumento aqui, as palavras que utilizamos para exibir nossa “fé em Deus”. A resposta de Isaías serve tanto para os religiosos que enfatizam a religião externa, aparente, quanto para os críticos desconstrutores: a fé, “a religião pura” (na linguagem de Tiago 1:27), é aquela que faz, que se materializa em ações, que repara brechas, que restaura ruínas, que alimenta os famintos, que liberta os oprimidos, que abriga os desabrigados etc; é, enfim, uma manifestação de Deus – se aceitarmos a noção de Deus como amor.

Minha oração é que possamos, de alguma forma, nos abrir a essa visão de fé como um construir, e nos aproximarmos da visão de Deus como Criador, sendo “deificados” em nossa disposição de sermos moldados pelo soprar do Espírito.

+Gibson

sábado, 26 de janeiro de 2013

A religião como algo maior que a crença


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Durante esta semana, me envolvi em três discussões interessantes sobre crença e religião – com diferentes pessoas e em diferentes contextos, mas com os argumentos seguindo o mesmo caminho conceptual: a fé religiosa, na compreensão de meus interlocutores, é identificada com crença; sua compreensão é que a fé religiosa seja necessariamente sinônimo de aceitação de dogmas. Felizmente, meus colegas não poderiam estar mais equivocados!

Acredito que a razão básica pela qual tantas pessoas pensem assim seja por estarem acostumadas à preocupação cristã com ortodoxia: a fé como sinônimo de assensus, ou seja, a fé como uma função intelectual de aceite duma formulação da crença correta. Assim, a maioria dos herdeiros da tradição cristã não se dá conta de que o termo “fé” possui diferentes sentidos no Cristianismo – assim como também para outras tradições de fé jordânicas (o Judaísmo e o Islã). Essas pessoas não se dão conta de que, por exemplo, mesmo nas tradições “ortodoxas” da Igreja ocidental – i.e., o Catolicismo Romano, o Luteranismo, o Anglicanismo, e as variadas tradições reformadas etc – há não apenas uma preocupação com a fé enquanto uma afirmação intelectual, mas também como prática. Assim, falamos não apenas em ortodoxia (crença correta) – que parece ser uma obsessão, especial e surpreendentemente para aqueles que estão fora da igreja (e eu poderia apontar um sem número de razões para isso, mas vou deixar isso de lado!) –, mas também em ortopraxia, isto é, na prática correta.

A preocupação com a ortopraxia é uma marca de tradições como o Judaísmo e o Islã, mas também é parte integrante do Cristianismo – apesar de a história da Igreja ocidental ser marcada, por inúmeras razões, por uma preocupação com a “correção” teológica, e isso fazer com que as pessoas (especialmente aqueles que tendem a reduzir a religião a um instrumento de “dominação” ou a enxergá-la a partir da ótica funcionalista) não consigam ver as variadas facetas fenomenológicas da fé religiosa. Cristãos liberais como eu não rejeitam a importância da fé como assensus, apenas compreendemos esse aspecto da fé como sendo secundário, enfatizando muito mais o fazer do que o crer.

A Reforma Protestante, com sua ênfase na fé como assensus, e sua rejeição das obras como instrumento salvífico, acabou por criar no inconsciente de muitos protestantes, com o passar do tempo, uma antipatia para com preocupações com nossas ações. Entretanto, nós protestantes liberais, encontramos nossa compreensão da religião como uma prática enraizada na própria narrativa bíblica. Gosto de pensar sempre neste trecho do Novo Testamento:

Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Por acaso a fé poderá salvá-lo? Por exemplo: um irmão ou irmã não tem o que vestir e lhes falta o pão de cada dia. Então alguém de vocês diz para eles: “Vão em paz, se aqueçam e comam bastante”; no entanto, não lhes dá o necessário para o corpo. Que adianta isso? Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. Alguém poderia dizer ainda: “Você tem a fé, e eu tenho as obras.” Pois bem! Mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé.” (Tiago 2:14-18)

Esta é apenas uma citação bíblica que trata dessa preocupação com a maneira como damos vida à religião em nosso dia a dia, e para mim (que tenho um pé na tradição teológica luterana), uma das mais emblemáticas – já que parece contradizer a compreensão de Lutero (não vou entrar aqui na discussão do por quê essa aparência é equivocada, em minha compreensão!). Seja como for, o Cristianismo é amplo demais para ser reduzido à tradição do “cremos”. Também, respondendo ao que alguns comumente me dizem, uma religião que trata a “crença” teológica como algo secundário não é apenas uma “filosofia”, e essa parece ser uma ideia compartilhada pelo próprio autor da já citada Epístola de Tiago:

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.” (Tiago 1:27)

Minha compreensão pessoal é a de que a religião seja uma prática, uma ética e um modo de vida moldados por minhas crenças teológicas. Essas crenças – a fé como assensus – são muito importantes, mas desempenham um papel extremamente menor do que aquilo que minha tradição de fé me ensina ser esperado de mim em minhas ações para com todas as pessoas que me cercam, e para com toda a criação.

+Gibson