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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Jesus e a manjedoura: o Natal como lembrete do espírito de hospitalidade

Uma das partes mais interessantes da narrativa natalina parece ser sempre esquecida por todos nós. Sempre nos lembramos da manjedoura, da estrela, dos reis magos, dos animais, dos presentes, dos anjos, mas, por alguma razão, nos esquecemos da falta de alojamento!

Na narrativa do Natal, no Evangelho de Lucas 2:6-7, o detalhe de os pais de Jesus não terem encontrado abrigo numa hospedaria é tão importante – ou, talvez, até mais – quanto os demais detalhes narrativos. Jesus nasce numa manjedoura por seus pais não terem encontrado abrigo dentro da hospedaria.

Uma mulher grávida, em trabalho de parto, é deixada do lado de fora, no abrigo dos animais, e lá dá luz a seu filho. A gravidade disso, na lei judaica, é incompreensível para a maioria dos cristãos. A Bíblia hebraica, e, mais tarde, a literatura rabínica, apontam o comportamento esperado de alguém que recebe um hóspede: mesmo antes de obter quaisquer informações sobre seu hóspede, como o seu nome, por exemplo, o anfitrião deveria cuidar das necessidades daquele – como descarregar sua bagagem, alimentar e dar de beber a seus animais, oferecer água para que o hóspede e seus criados lavassem os pés, e alimentá-los (Gênesis 18:2-5; 19:2-3; 24:31-33); durante a estadia, o anfitrião deveria se sentir pessoalmente responsável por qualquer mal que ocorresse a seu hóspede (Gênesis 19:8); na despedida, outro banquete deveria ser servido (Gênesis 26:30; Juízes 19:3-5); o hóspede e o anfitrião poderiam fazer uma aliança (Gênesis 26:31), e o anfitrião deveria acompanhar o hóspede para a despedida (Gênesis 18:16); por sua vez, o hóspede deveria abençoar seu anfitrião antes de partir (Gênesis 18:10), e deveria perguntar-lhe se ele (o anfitrião) precisava de algo (2 Reis 4:13); se o hóspede quisesse permanecer com o clã ou na localidade, era-lhe permitido escolher uma moradia (Gênesis 20:15). Essa era a prática da hospitalidade como estabelecida na cultura do povo de Jesus.

Curiosamente, e, na verdade, essa parece ser a intenção da narrativa – pelas mais variadas razões –, aqueles que deram abrigo à “sagrada família” não seguiram esse ritual da hospitalidade. A recepção – ou seria despedida? – hospitaleira é recebida dos pastores que vão visitar o “messias” recém-nascido, após serem avisados por anjos!

Tantas pessoas se importam com os detalhes miraculosos desse relato evangélico, enfatizando os adereços narrativos, e se esquecem daquilo que parece-me ser o mais importante: não havia abrigo para aquela mãe prestes a dar à luz! Seu bebê nasceu dentre os animais, porque seus anfitriões não cumpriram o mandamento de serem hospitaleiros! E fico me perguntado se eu mesmo, tão preocupado com meus compromissos festivos – nesta data na qual celebramos o nascimento daquele bebê –, não ignoro a hospitalidade para com aqueles para os quais deveria ser um anfitrião.

É minha sincera oração que possamos, antes de mais nada, desenvolver o sentimento de hospitalidade – abrindo nossos corações, mentes e braços para nossos semelhantes.

Feliz Natal!!!

+Gibson

sábado, 15 de dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

Calendário religioso, literacia religiosa e intelectuais antirreligiosos

Este é um daqueles períodos do ano que possuem um sentido especial para, pelo menos, duas grandes tradições religiosas mundiais – o Judaísmo e o Cristianismo. Para a tradição cristã, (o Advento e) o Natal; para a tradição judaica, Hanukkah. Mesmo aqueles que se identificam como não religiosos, ou mesmo como ateus, no mundo judaico-cristão, essa temporada não passa despercebidamente, já que nossa cultura (além de nossa economia!) nos relembra que “há algo no ar”.

Como um indivíduo religioso, é óbvio que esta época é especialmente relevante para mim. Ela possui um sentido metafórico enraizado naquela tradição judaico-cristã que molda minha visão de mundo – aquela cultura que funciona como a janela através da qual aprecio a imagem lá fora. Mesmo aquelas pessoas que não participam de minha comunidade de fé, ou que não apreciam ou compreendem a metáfora religiosa, percebem a importância simbólica dessas datas para mim.

Em épocas como esta, entretanto, sou lembrado acerca de algo que está além do imaginário religioso individual dum devoto, englobando questões intelectuais muito básicas. Frequentemente, percebo a ausência de fluência religiosa – ou literacia religiosa, como geralmente chamo – daqueles que supostamente se ocupam em pensar acerca do social (por exemplo, jornalistas, sociólogos, antropólogos, historiadores, estudantes em geral etc). Nossa sociedade urbana mediocremente educada, que se orgulha em copiar os moldes do secularismo europeu – “ingenuamente” crendo que isso seja sinônimo de superioridade intelectual –, comporta-se como se possuir um certo nível de compreensão duma parte tão importante de sua cultura fosse algo supérfluo, dispensável, ou mesmo selvagem.

A ignorância voluntária acerca do domínio da fé é tão gritante que já fui testemunha de muitas afirmações grosseiramente equivocadas, advindas de “intelectuais” que formam outros “intelectuais”, que foram aceitas como “verdade factual” por seus ouvintes (“verdades” essas que, para o nível esperado do público presente, seriam facilmente questionadas por uma simples leitura de bons guias básicos de religião!). Pode parecer algo irrelevante para aqueles “intelectuais”, mas, para mim, é uma questão de integridade intelectual.

Para citar um exemplo desse problema de ausência de literacia/fluência religiosa, penso em algo que li no livro de Sociologia dum grupo de alunos meus, que vieram me pedir informações sobre o que leram lá. Este livro (para o Ensino Médio) reproduzia um artigo de revista sobre uma comunidade Amish no Paraguai, chamando-os de puritanos e fundamentalistas. Claro que isso fez com que meus alunos e eu nos engajássemos numa prolongada discussão sobre o que aqueles adjetivos significavam teologicamente, e a diferença entre esse sentido e aquele que (supúnhamos) era dado pelo autor do artigo. [Devo confessar que o maior problema que tive com essa experiência foi o fato de não haver, no livro de Sociologia, nenhuma discussão sobre as escolhas semânticas feitas pelo jornalista – o que me levava a acreditar que o autor do livro concordava com a opinião do jornalista –, e não muito o uso feito pelo próprio jornalista!]

Mais recentemente, as discussões sobre “homofobia” (seja lá o que queiram dizer exatamente com este termo!) e aborto, que parecem ser os novos queridinhos dos meios politiqueiros brasileiros que se engajam em copiar a semântica política d'alhures, entram pelo mesmo caminho. “Intelectuais” supostamente respeitáveis fazem afirmações deselegantes sobre a fé de diferentes tradições, e seus comentários só mostram que, talvez, devessem se informar um pouco mais, se quisessem que seus argumentos soassem mais maduros. Para alguns “intelectuais”, ser religioso é sinônimo de ser “puritano”, “fundamentalista”, e “homofóbico”; enquanto ser sofisticado é não se opor ao aborto, às drogas, e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo! Mais uma vez, o problema da falta de literacia religiosa; e mais, o problema da falta de literacia cultural!

Aprendi desde muito jovem que, mais importante do que minha opinião, eram meus argumentos em defesa dessa opinião que realmente faziam diferença. Não posso ter bons argumentos em favor de ou contra algo que não conheço. Como os antigos filósofos chineses, pais da teoria do jogo, já ensinavam: só podemos vencer uma guerra quando conhecemos aos nossos inimigos. Como, regra geral, não acredito em guerras, prefiro mudar isso para algo como: só podemos viver bem com outros seres humanos quando aprendemos sobre eles, e descobrimos coisas a seu respeito que podemos apreciar. Talvez já seja hora dos “intelectuais” belicosamente antirreligiosos aprenderem um pouco sobre religião, e descobrirem algo que possam apreciar entre aqueles que abraçam uma fé. Quem sabe, não acabarão ensinando algo positivo aos “puritanos, “fundamentalistas e “homofóbicos”!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quem está no comando mesmo?

Esta semana, vi um adesivo num carro que me deixou teologicamente inquieto. O adesivo dizia o seguinte:

Deus está no comando!

E isso me fez lembrar de tudo o que ouço de tantas pessoas, das mais diferentes tradições de fé, e percebi que a maioria das pessoas que dizem frases como essa não a compreendem como metáforas, mas como afirmações factuais de sua compreensão do Divino, e da forma como Divino e humano interagem na vida real.

Essa compreensão não poderia estar mais distante de nossa tradição Unitarista! Deus não pode estar “no comando”, já que isso violaria um dos “dogmas” – é, eu sei o quanto todos nós desapreciamos esta palavra, mas nós não deixamos de ter os nossos também! – mais importantes de nossa tradição, sem o qual o Unitarismo, enquanto tradição cristã, desabaria: o livre arbítrio – a liberdade que os humanos têm de escolher seu próprio caminho na vida! [Isso para não citar que essa noção de “Deus estar no comando” não faria muito sentido para a compreensão que a maioria de nós, talvez, tenhamos do próprio Divino!]

Quando leio ou ouço “slogans” como esse, não posso evitar pensar em questões como: Se Deus realmente está “no comando”, como pode acontecer tantas catástrofes e desgraças no mundo? Se Deus realmente está “no comando”, como pode um homem entrar armado numa escola e atirar contra crianças indefesas? Ou como pode um grupo de homens sequestrar aviões e arremessá-los contra duas torres comerciais? Como pode uma mãe abandonar sua própria filha numa lata de lixo? Como pode um homem bater em sua própria esposa? Como pode um pai matar seu próprio filho? Como pode um jovem morrer num acidente de automóvel? Como pode um ônibus cair num desfiladeiro? Se Deus está realmente “no comando”, e todas essas coisas acontecem, consigo pensar em duas explicações: Deus é “um ser” extremamente cruel – mais cruel que qualquer ser humano psicologicamente sadio – que se alegra com o sofrimento da humanidade; ou Deus é “um ser” estúpido! Essas duas opções servem como resposta ao argumento utilizado por alguns de que o sofrimento é a maneira utilizado pelo Divino para nos ensinar! [Eu, como um ser humano imperfeito, jamais imporia morte, doença ou desgraças a um filho meu – se fosse um pai – para ensinar-lhe o que quer que fosse!]

Não! Deus não está “no comando”! O Divino – seja lá o que esse termo signifique para cada um de nós – abençoou-nos com a liberdade para estarmos nós mesmos no comando! Nós somos os guias de nossas caravanas, e não um ser ou poder, ou realidade, além de nós próprios. Frases como aquela podem servir de metáfora para a noção de que não estamos sozinhos, ou de que podemos encontrar alento e direção numa Realidade além de nossa experiência física – não vejo problema nocional algum com isso –, mas compreender que Deus controle tudo é trair a mensagem cristã (ao menos, a maneira como nós Unitaristas compreendemos essa mensagem!), é impor ao Divino a responsabilidade por nossos erros e crimes, é ignorar a maneira como o Universo funciona, é atribuir ao Deus da tradição judaico-cristã características deveras humanas e até menores que as humanas! Quando os homens cometem violências contra outros membros de sua espécie, ou membros de outras espécies, é porque estão utilizando sua liberdade da maneira errada (ao menos, para a ética que guia nossa compreensão de mundo). Quando desastres naturais nos atingem, e ceifam a vida de muitos dos seres que povoam este planeta, é porque há “razões naturais” para aqueles desastres, ou, novamente, porque utilizamos nossa liberdade para alterar o espaço geográfico de forma que contribuiu com aqueles desastres. Em outras palavras, para mim é claro que nós é que estamos “no comando”!

Como diriam as duas últimas linhas do lindo poema de William Ernest Henley, "Invictus":

"Eu sou o senhor de meu destino:
Eu sou o capitão de minha alma."

Espero apenas que possamos ter sabedoria para saber comandar nossos próprios destinos e almas!

+Gibson

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Unitaristas e a liberdade de consciência


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Hoje, mais uma vez, iniciamos o curso preparatório para a recepção de novos membros em nossa Congregação. Sempre fico muito feliz quando tenho a oportunidade de facilitar esse curso. É a maior chance que tenho para conhecer mais proximamente aqueles que têm a intenção de se tornarem membros desta igreja. É a chance que tenho para lidar com questões sobre as quais, talvez, ainda não tenha pensado, e, assim, ter mais ideias a serem discutidas em momentos como este.

Uma das coisas com as quais qualquer membro novo desta Congregação tem que lidar é nossa tradição de liberdade de consciência, que é o sentido básico do adjetivo “liberal” que utilizamos orgulhosamente como sinônimos de nossa tradição Unitarista. Essa liberdade pode ser assustadora para muitos que intentam juntar-se a nós; e, é bom que reconheçamos, pode se tornar um problema para alguns deles também!

Somos uma igreja cristã. Em muitos sentidos, somos, enquanto comunidade de fé, muito semelhantes a outras igrejas cristãs. Estudamos a Bíblia, e seguimos um lecionário cristão tradicional. Temos liturgias riquíssimas em poesia e tradição. Usamos símbolos cristãos em nossa capela. Seguimos o calendário do Ano Cristão em nossa vida comunal. Celebramos sacramentos ou ritos cristãos tradicionais, como Batismo e Comunhão. Enfim, temos muitas semelhanças com outras comunidades cristãs, especialmente com aquelas mais tradicionalmente litúrgicas! O que, então, distingue-nos – nós Unitaristas – de outras tradições cristãs?

A resposta que essa comunidade tem dado em seus 79 anos de história aqui em Pernambuco é ouvida em alto e bom som na canção que acabamos de ouvir de nosso coral: “Liberdade”! Essa é, na compreensão desta comunidade, a grande diferença. Essa resposta está também no lema desta Congregação: “Mentes abertas, mãos abertas, corações abertos”. Esse é o sentido primordial que esta comunidade atribui à sua tradição Unitarista.

Essa liberdade, entretanto, não é algo fácil e simples. O liberalismo que essa comunidade celebra como seu não é sinônimo de “Faça o que quiser, contanto que não seja o mal” – que é o que muitos, erroneamente, interpretam ser o Unitarismo. Não. Nosso liberalismo é uma atitude consciente, racional, seletiva, fiel e íntegra para com nossa tradição cristã. Esta comunidade está ancorada numa tradição teológica que nasceu no século dezesseis no leste europeu, atravessou o continente, chegou à América do Norte no século dezoito, e se instalou no Brasil no século XX. Nosso liberalismo fala o idioma duma tradição protestante litúrgica, cuja janela para a realidade é a linguagem metafórica da Bíblia, e cujo caminho para Deus está em Jesus. Nosso liberalismo prega uma união que não está ancorada numa concórdia imposta por credos ou confissões. Nesta comunidade de fé, não esperamos que todos acreditem exatamente na mesma coisa, que cheguem todos às mesmas conclusões; o que esperamos é que entre nós tenhamos um espírito de koinonia, de comunhão, de comunidade ampla; um espírito de inclusão, e de hospitalidade; um espírito cristão! Esse é o sentido que damos à nossa tradição!

Quando pessoas vêm a nós de outras tradições de fé, se assustam um pouco com o fato de haver tantas compreensões diferentes aqui. Certa vez, por exemplo, alguém me disse que imaginava que ser um Unitarista fosse não acreditar no dogma da Trindade, mas que quando conversou com algumas pessoas aqui, percebeu que muitos entre nós eram trinitaristas! Tive, então, de explicar àquela jornalista que o Unitarismo não se distingue de outras tradições cristãs por causa de sua compreensão de Deus ou de Cristo; o que historicamente nos distingue de outras tradições é nossa ênfase na liberdade de consciência! Essa liberdade de consciência, entretanto, se movimenta dentro da tradição cristã. Assim, podemos chegar a diferentes conclusões acerca da natureza de Deus, mas – em nossa tradição –, nossas conclusões serão articuladas numa linguagem cristã. Para nós, essa linguagem cristã inclui as Escrituras, a tradição da Igreja, a filosofia ocidental, as descobertas científicas, as artes modernas, e o Espírito que dá vida à busca humana por verdade.

Nesta comunidade, encontramos pessoas dos mais diferentes tipos, dos mais diferentes backgrounds sociais e teológicos. Aqui há não-trinitaristas e trinitaristas, teístas e não-teístas, crentes e agnósticos. Entre nós há aqueles que enxergam os elementos da Eucaristia que partilharemos em alguns minutos como apenas símbolos dum ofício realizado por Jesus há dois milênios atrás, e há outros que os veem como portadores da presença de Cristo entre nós. Alguns de nós falam em sacramentos, outros em ritos. Alguns estenderão suas mãos para partilhar do pão e do vinho, outros preferirão receber uma benção. Há até pessoas não-exclusivamente cristãs entre nós, já que alguns de nós mantemos laços com a tradição judaica – alargando nossa linguagem cristã para uma linguagem judaico-cristã!

Toda essa liberdade, que pode ser muito confusa para alguém que tem um primeiro contato com os Unitaristas, exige um grande senso de integridade intelectual de nossos membros! O Unitarismo não oferece respostas fáceis! Geralmente não falamos em milagres, em salvação, e em vida após a morte, com a mesma frequência ou o mesmo sentido que em outras comunidades. Daqui deste púlpito, geralmente não tratamos de temas dogmáticos, em grande parte, em respeito pelas diferenças de opinião entre nós. Quando um Ministro desta igreja fala sobre algo deste púlpito, ela ou ele tem a responsabilidade de lembrar-se da diversidade teológica entre nós, e falar num tom de respeito para com aqueles que são parte de nossa família, ao mesmo tempo em que é íntegra e íntegro a suas próprias convicções pessoais. E isso pode ser muito assustador para alguém que vem de outra tradição. Mas esse é o espírito desta comunidade!

Ser Ministro duma congregação tão diversa como esta nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, mas é o desafio mais surpreendentemente maravilhoso que qualquer Ministro cristão – especialmente um Unitarista Anglo-Luterano como eu – pode experienciar. E, até onde posso perceber, é uma experiência surpreendentemente maravilhosa para a maioria daqueles que fazem esta pequena família. Espero poder encontrá-los em nossa próxima aula, e poder conversar com alguns de você mais de perto!

+Gibson

(Congregação Unitarista de Pernambuco, 11 de novembro de 2012)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Deus seja louvado!


Enviaram-me, esta noite, mais um daqueles e-mails irritantes que enchem minha caixa de spam. Não o li por querer; acidentalmente, ao selecioná-lo para ser deletado, abri-o. Tratava-se duma convocação para assinar um apoio a uma suposta ação do Ministério Público Federal (divulgado pela imprensa hoje) que pede a retirada da frase “Deus seja louvado” das cédulas de Real. O e-mail afirmava que essa era uma ação necessária para garantir a laicidade do Estado brasileiro.

Ora, vamos! O Estado brasileiro é laico – e eu, como membro duma minoria religiosa não-católica, sei disso –, mas não é um Estado ateu! A própria Constituição Federal reconhece isso, quando, em seu Preâmbulo, os membros da Assembleia Nacional Constituinte invocam a proteção de Deus para promulgá-la!

A referência a Deus nas cédulas de Real são a mais inclusiva afirmação dum importante aspecto da história cultural dessa nação, o fundamento metafísico de nossa cultura nacional, que – para a cultura brasileira – é anterior ao Estado, anterior e superior às leis humanas.

Os supostos ateus que sempre me enviam mensagens sobre “lutar por um Estado laico” estão, até onde entendo, equivocados em sua interpretação tanto do Estado laico (que não é o mesmo que Estado ateu!), quanto da suposta violação de direitos pelo “Deus seja louvado” nas células de Real.

O “Deus seja louvado” é mais a afirmação duma identidade cultural, que a afirmação duma fé específica. Esses movimentos, que tentam imitar discussões ocorridas nos últimos anos nos Estado Unidos e partes da Europa, sobre temas semelhantes, deveriam encontrar coisas reais com as quais se preocupar! Eu, com todo respeito, sinto-me mais ofendido por sua estupidez!

+Gibson

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um pouco de clareza semântica, por favor!


Sempre me aborreço com a maneira como somos semanticamente descuidados em nossas discussões. Para dar um exemplo, pense no uso que recorrentemente fazemos hoje de expressões como “fundamentalismo”, “ideologia”, “capitalismo”, e “neoliberalismo”. Para mim, nem sempre é muito claro o que esses termos significam no discurso da maioria daqueles que os utilizam. Eles se tornaram “chavões” discursivos que significam quase qualquer coisa nos discursos políticos e acadêmicos, apesar de, na história intelectual, terem significados específicos.

Talvez minha quase-obsessão semântica seja um mal advindo de minha formação clássica e teológica. Como alguém que se ocupa do estudo histórico de ideias religiosas, tenho que manter em mente o sentido que determinados termos possuem nos textos que analiso. Assim, relações intertextuais são indispensáveis ao meu campo de análise. Não posso, por exemplo, utilizar o termo “fundamentalismo” para me referir a movimentos reformistas na Europa do século XVI, e achar que não há nenhum problema com isso! Considero que viver numa era na qual não há mais noções de objetividades existenciais, na qual não há mais verdades inquestionáveis, exige um cuidado semântico maior para que possamos manter um certo nível de inteligibilidade. Infelizmente, nem todos compreendem isso.

A plasticidade idearia que invadiu o domínio semântico é tão assustadoramente “descontrolada” que tenho quase certeza que nossos antepassados teriam um grande problema para nos entender – não apenas por usarmos uma linguagem diferente, mas porque aquelas antigas noções que lhes ofereciam um senso de segurança e unidade, e que se manifestavam em termos plenos de sentido, não significam a mesma coisa (quando significam algo!), e seu uso não segue a nenhum padrão de significado que possa ser plenamente partilhado por todos os interlocutores.

Vindo dum teólogo que se preocupa com a relação entre a fé e a linguagem metafórica, esse apego à clareza semântica pode parecer contraditório – já que, para mim, a fé (o texto) só pode ser compreendida em relação às construções subjetivas do sujeito (i.e., relações intertextuais). Mas minha consideração de subjetividades individuais só são possíveis porque conceitos, em seus contextos históricos, são essenciais para a construção exegética. Então, talvez a confusão semântica seja indispensável ao domínio literário, mas podemos dispensá-la quando nos referimos a uma tentativa de construir uma compreensão do domínio das ideias: seja na teologia, na filosofia, na história, na sociologia etc. A clareza semântica é essencial para a construção teórica e, consequentemente, para a eficiência metodológica.

+Gibson

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O “conservadorismo” dum autoproclamado herege


Enquanto conversava com um grupo de amigos ontem, alguém fez um comentário um tanto inesperado, no contexto do que discutíamos, mas, até certo ponto, verdadeiro. Fui chamado de “conservador” numa discussão teológica! Todos se entreolharam, alguns riram, alguém chegou a perguntar ao colega o sentido da palavra “conservador” para ele, e, em seguida, ele respondeu “Não falo teologicamente; acho que você seja um conservador socialmente!”. “Ufa! Que susto!” - brinquei.

Brincadeiras à parte, é engraçado o limite que enfrentamos quando tentamos classificar ideias e atitudes. Como alguém que se ocupa de pensar sobre minha tradição religiosa – leia-se o “Cristianismo protestante” –, sou geralmente visto como qualquer coisa, menos ortodoxo. E essa é uma visão não apenas alheia, como a minha própria autoclassificação. Gosto de enfatizar que sou, teologicamente, um herege, já que enfatizá-lo é afirmar a herança teológica na qual emergi como homo religiosus. [Essa auto-classificação per se já é problemática, pois quase ninguém entende o que significa o adjetivo “herege” quando este é usado no contexto da fé. Isso inclui pessoas supostamente bem informadas em se tratando da Teologia e de outras “ciências humanas”, por exemplo.]

Afirmar minha herança herética, entretanto, não é negar que a fé e a tradição religiosas exerçam um grande papel em minha vida. E não poderia ser diferente. Essa é a razão pela qual sou um Ministro religioso. Essa é a razão pela qual me engajo no estudo e discussão de minha tradição de fé. Nesse sentido, sou um conservador: alguém que busca manter viva a tradição de fé [herética] que me alimenta; alguém que se esforça para caminhar nos limites de minha própria tradição teológica, mesmo explorando caminhos paralelos que me ajudem a ampliar a dimensão do entendimento de minha própria tradição de fé.

Conheço as objeções que muitos fazem a essa ideia, mas partilho, até certo ponto, das perspectivas clássicas de Christopher Dawson da religião – ou da “dinâmica espiritual” – como modeladora da cultura duma sociedade. Para ele, claro, essa “religião” não precisaria ser algo explicitamente religioso, poderia ser uma “religião disfarçada”. Marcelo Gleiser, inclusive, fala desse mesmo disfarce quando sugere que mesmo ateus podem transformar sua busca por um ideal de perfeição – nos esportes, na ciência etc – em um ritual sacro. Então, quando meus amigos ateus zombam de minha “religiosidade”, não posso fazer nada mais além de zombar da sua também! Alguns deles se ocupam tanto em desacreditar a fé, por exemplo, que chegam a soar ainda mais visceralmente dogmáticos do que aqueles que tentam desacreditar! Nesse sentido, sua suposta descrença é sua religião!

Aqueles de fora de minha herança de fé têm um grande problema em compreender a relação entre minha fé e minha orientação emociono-sexual, por exemplo. Para eles, especialmente os que não são religiosos (por mais inacreditável que isso possa parecer!), ser um Protestante (claro que eles não compreendem absolutamente nada sobre o Unitarismo, o Anglicanismo, ou o Luteranismo – minhas tradições pessoais) é irreconciliável com uma identificação “gay”. Para os religiosos, especialmente os protestantes evangelicais – que enfatizam uma visão do papel das Escrituras aparentemente irreconciliável com a minha –, simplesmente não sou cristão! Para aqueles que tornaram a homossexualidade (como odeio esta palavra!) sua religião – sim, porque não conseguem se enxergar como nada mais além de gays; tudo o que supostamente sofrem resume-se ao “fato”(?) de serem homossexuais! –, minha fé é uma ofensa descabida, já que sou parte da “instituição” (i.e., a religião) que os oprime!... E a ladainha se repete ininterruptamente em minhas interações sociais!

Além disso, há ainda o fator político! Geralmente, só se consegue pensar em termos das posições diametralmente opostas do espectro político – as antigas “direita” e “esquerda” que, desculpe-me Norberto Bobbio, não sei se fazem tanto sentido no Brasil de hoje –, ignorando-se quaisquer perspectivas que não se encaixem perfeitamente a esse molde prefabricado. E essa monotonia ideológica que paira sobre nossos diálogos intermináveis é irritante! Esses supostos diálogos são, na verdade, um monólogo disfarçado – um monólogo de velhas ideias que temem ser desafiadas por novas fusões de ideias – que tenta acorrentar mentes jovens. Um verdadeiro enfado; um verdadeiro enfado que tenta acorrentar o próprio Deus!

Por isso sou um autoproclamado herege. Se a heresia é, etimologicamente, uma questão de escolha, então sou um herege! Um cristão herege. Um judeu herege. Um ortodoxo herege. Um liberal herege. Um conservador herege. Um herege herético. Um ser humano fundamentalmente à beira duma fé permanentemente herética!

+Gibson

DAWSON, Christopher. Progresso e Religião: uma investigação histórica. Tradução Fábio Faria. São Paulo: É Realizações, 2012.

GLEISER, Marcelo. O fim da Terra e do céu: o Apocalipse na Ciência e na Religião. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 31.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre o Orçamento de 2013: uma mensagem aos membros da CUP


Grande parte do que um ministro Unitarista faz em seu trabalho é envolver-se com o ensino religioso em nossa comunidade. Em nosso caso, especialmente, esse parece estar no centro de tudo o que nos esforçamos a fazer: em primeiro lugar, por estarmos num país onde somos poucos e onde não há muitos materiais em português para que possamos educar nossa comunidade em nossa tradição (e, por isso mesmo, infelizmente o Unitarismo continua a ser este círculo fechado ao qual poucos têm acesso); e, em segundo lugar, e ainda como consequência do primeiro, temos uma comunidade idosa, e nos preocupamos com o futuro de nossa tradição cristã liberal em nosso país se não investirmos na educação religiosa de nossos membros mais jovens. Isso, talvez, explique a verdadeira obsessão que esta comunidade tem com educação religiosa.

Líderes de outras comunidades de fé, e mesmo de outras igrejas Unitaristas em outras partes do mundo, não compreendem algumas das escolhas que vocês, como membros desta congregação, decidem fazer. Em um encontro recente que tivemos com alguns outros ministros aqui mesmo em Recife, ouvi um questionamento que merece uma resposta pessoal minha a vocês. Um dos participantes disse não compreender por que aqueles que servem esta congregação como Ministros da Palavra e Sacramento abrem mão de receber um salário e são obrigados, por isso, a ter um emprego lá fora – enquanto que se a congregação investisse em seus próprios ministros, estaria investindo em si mesma, já que teriam nossa atenção em tempo integral. Ele disse que não compreendia como uma comunidade que tem membros espalhados por vários Estados pode não cuidar de seus ministros. Não preciso dizer que aquele comentário levou todos os participantes a se envolverem na atividade mais tradicional duma comunidade Unitarista: um debate – um debate que durou cerca de duas horas após os comentários iniciais, e que tem continuado ainda no universo virtual!

Gostaria de dizer àqueles entre vocês que não sabem disso que a decisão de tornar o Ministério desta congregação um Ministério não-estipendiário foi tomada pelos seus próprios Ministros da Palavra e Sacramento: os Ministros Auxiliares e eu – que, de acordo com o Estatuto desta comunidade, recebem salário para trabalhar aqui. Tomamos essa decisão quando aceitamos o chamado para nos engajarmos no ministério entre vocês. Todos nós já tínhamos sido Ministros de outras congregações e, assim, conhecíamos os desafios financeiros de comunidades como essa. Quando ainda estava sendo entrevistado para este chamado, tinha certeza de que a educação religiosa seria o melhor investimento que poderíamos fazer, além daquelas outras ações de natureza social na qual esta comunidade investe.

Alguns de nossos amigos não entendem como uma comunidade se desfaz de seus poucos bens para levantar fundos e ajudar a construir um hospital do outro lado do mundo. Não entendem por que pessoas que se aposentaram, e poderiam estar aproveitando os frutos de seu trabalho, decidem trabalhar em outras comunidades – que surgiram a partir dos esforços desta – na África do Sul, no Quênia, na Índia e na Guiana, sendo financiados pelos suas próprias economias. Não entendem por que nossos jovens são estimulados a doarem parte de seu tempo livre em serviço a outras pessoas no Sertão de nosso Estado. E não sei dizer se nós, os ministros desta comunidade, compreendemos isso plenamente, mas posso garantir que somos inspirados pela dedicação e amor de vocês à causa que abraçam. Enquanto comunidade que toma essas decisões, vocês dão vida, em suas próprias ações, às palavras que rezam na aliança feita por todos aqueles que se tornam membros desta congregação:

O amor é a doutrina desta igreja,
E o serviço é a sua oração.
Habitar juntos em justiça e paz,
Buscar a verdade com liberdade,
Respeitar o valor e dignidade de todas as pessoas,
E servir a humanidade juntos,
A fim de que todas as almas
Possam crescer em harmonia com o divino,
Esta é a aliança que fazemos uns com os outros.

Quanto a mim, posso garantir-lhes que é sua dedicação que me inspira a continuar servindo-os, enquanto vocês desejarem isso.

A maneira como os quatro ministros desta congregação – Tadeu, Peter, Alícia e eu - têm conseguido servi-los, enquanto mantemos uma vida profissional envolve muita oração e negociação. Cada um de nós tem um ou mais empregos, e dividimos nossas responsabilidades de acordo com nossos horários; e esses horários são alterados de acordo com a necessidade que nossa comunidade tem. Por isso, nem sempre, vocês podem ter a presença específica de um de nós numa atividade na qual gostariam que estivéssemos. Cito como exemplo o caso de um de nossos grupos que me chamou na última semana para estar presente em uma atividade na qual não pude estar, por estar trabalhando naquele horário; não estive lá, mas um outro ministro esteve em meu lugar. Esse aparente sacrifício – de todos os lados, tanto dos ministros quanto da congregação em si – tem uma razão muito especial de ser: o que vocês gastariam com salários, pode ser investido nos programas essenciais desta comunidade, e como bem sabem, mesmo assim, ainda é difícil! Precisamos de um novo prédio, preferencialmente de mais fácil acesso a todos aqueles que queiram estar entre nós, e onde possam chegar mesmo que tenham acesso apenas ao transporte público. Essa meta, entretanto, jamais será cumprida se esta congregação gastar dinheiro pagando salários para seus ministros – e essa é uma conclusão a qual todos os Ministros da Palavra e Sacramento desta congregação chegaram juntos, não é uma conclusão minha apenas.

Essa dificuldade de equilibrar necessidades financeiras pessoais com as necessidades da comunidade a qual servimos é que motiva algumas decisões polêmicas que pessoalmente tomei neste ano. Quando deixei a Presidência da Associação Unitarista, o fiz para que pudesse cumprir meu chamado mais importante, que é o de pastorear esta Congregação, e, ao mesmo tempo, de ser capaz de trabalhar para me sustentar. Eu passava muito tempo, quando não estava cuidando de minha própria vida, ocupado em reuniões da Associação, e tendo apenas poucas horas por semana para estar com vocês. Quando fui chamado como seu Ministro, prometi que cuidaria de vocês, que me comprometeria com suas necessidades, e esta foi a razão pela qual me afastei da Presidência da Associação. Continuo a servir também na Associação, mas apenas duma forma que não interfira em meu serviço entre vocês.

Tenho me esforçado em todos os projetos educativos de nossa comunidade, além de trabalhar num ministério de capelania a parte. E, para que se tranquilizem, quero que saibam que tenho sido capaz de lidar com minhas próprias necessidades financeiras, sem necessitar ser pago por vocês.

Como hoje vocês votarão o orçamento da Congregação para o próximo ano, saibam, desde agora, que nós, os Ministros desta Congregação, e eu, como seu Ministro Geral, lhes pedimos que confiem em nossa decisão conjunta e continuem a permitir que trabalhemos aqui como Ministros não-estipendiários. Peço que façam a melhor escolha para esta comunidade, levando em consideração as necessidades que ela tem, e que os poucos fundos sejam destinados aos programas de educação religiosa e missional no qual temos, como comunidade de fé, nos engajado nos últimos cinco anos. Cremos que possamos iniciar entre os membros um programa de arrecadações para a construção de nosso novo prédio, em alguns anos, mas que não devamos comprometer os fundos da Congregação com isso agora. O espírito de voluntariado tem sido a tradição desta igreja, e oramos para que ele continue a guiar suas decisões orçamentárias. É a nossa oração como Ministros desta Congregação; é a minha oração e pedido como seu Ministro Geral!

+Gibson

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O exílio da alma


Para mim, uma palavra-chave resume toda a tradição judaico-cristã de forma mais plenamente metafórica que qualquer outra: exílio. As Escrituras, que enxergamos como testemunhas de nossa fé e tradição, estão imersas na ideia de exílio. Nossa relação com o Divino, o Nome que traz-nos e o todo da Criação à existência, é uma relação de exílio. A história de nossa espécie sobre este planeta é uma história de exílio.

Exílio, êxodo, migração, errância e nomadismo são palavras que definem minha experiência humana e minha relação com a única verdade que continua ancorada em minha alma: Deus – o Mistério Eterno que aguça minha busca por uma permanência, em meio a todas as experiências de instabilidade identitária que têm modelado minha história até agora.

Nas tradições judaicas e cristãs, encontramos uma complexa e contínua narrativa de exílio. O exílio das almas humanas neste planeta, afastadas da esfera do domínio divino. O êxodo do povo hebreu na terra dos egípcios. A migração pelo deserto físico. A errância do Filho do Homem na terra da dor e sofrimento. E o nomadismo espiritual que é parte da jornada humana em sua busca pelo Divino. Nossa vida é uma existência de êxodo e exílio.

Por que, em seu sonho, Jacó não pode também subir as escadas que levavam ao domínio divino, como os anjos o faziam? Por que foi a terra do exílio que o Divino ofereceu-lhe, quando poderia ter-lhe oferecido o destino final? (Gênesis 28:10-15)

Aparentemente, o Deus de Jacó via o exílio como um privilégio, a possibilidade de ultrapassar o alcance das raízes identitárias que nos amarram e limitam; a oportunidade de ser divino também – no sentido de poder compreender a limitação da própria Criação. Por isso o sofrimento no deserto quente e seco do êxodo marca-nos a todos nós, mesmo aqueles que nunca deixaram os limites de seu próprio quintal. O filósofo Gilles Deleuze chamaria essa experiência exílica de “mobilidade”, e a compreenderia como sendo a essência do ser. Para ele, a mobilidade constituiria o instrumento da criatividade do ser. E eu não poderia discordar de Deleuze.

Desenraizar-se, ou, talvez, como diria o apóstolo Paulo sobre Jesus, esvaziar-se, é um ato revolucionário em si. É um ato corajoso de desafio àquilo que parece ser permanente em nós, mas que, ao nos tornarmos nômades, descobrimos ser transitório: nossa própria identidade.

Qualquer um que tenha experienciado a migração, qualquer um que tenha enfrentado a distância, a solidão, a saudade, conhece a sensação de se agarrar ao que restou para permanecer sendo o mesmo. Mas à medida que o novo e desconhecido se abre e desnuda diante de nossos olhos, deixamos de temer, e passamos, talvez, a inserir pequenos fragmentos daquela novidade em nossa própria identidade. E nascemos de novo.

Essa mobilidade, ou êxodo, ou exílio, é minha compreensão do “nascer de novo” da linguagem cristã. O exílio é o morrer e ressuscitar que devemos experienciar para que possamos nos tornar unos com Cristo.

Sim, Deus acertou em não ter permitido que Jacó subisse a escada que levava aos céus. A terra do exílio ensina-nos muito mais.

+Gibson


sábado, 1 de setembro de 2012

Palavras verdadeiras ou falsificadas?


(Leitura: João 6:56-69)


Para aqueles de vocês que têm participado da classe de adultos da Escola Dominical, onde agora estamos explorando um livro de Jack Miles, “Deus: uma biografia”, ou que tenham participado de outras discussões que tivemos anteriormente, isso não será novidade; para aqueles que não têm participado de nosso fórum de discussão, talvez esse seja um fato despercebido: a Bíblia é um clássico literário traduzido, conhecido em suas línguas originais apenas por um número limitadíssimo de pessoas. [1]

Todos os que já foram meus alunos no seminário costumam brincar com a primeira pergunta que os faço quando começam a estudar comigo: “Alguém aqui já leu a Bíblia?”. Todos levantam as mãos. Alguns retrucam que não a leram completamente. Outros dizem que já a leram muitas vezes. Costumo, então, demonstrar minha alegria e perplexidade em saber que somos um grupo de estudantes tão linguisticamente capacitados, e que isso facilitará em muito nosso trabalho durante o semestre – já que todos conhecem hebraico e grego tão bem! Os rostos mudam de expressão. “Mas além do hebraico e grego, também conseguem ler latim sem problemas?”... E o gelo é quebrado!

A brincadeira que sempre faço com meus alunos tem a ver com o fato de a maioria das pessoas lerem traduções das Escrituras, e não os textos nas línguas originais das mesmas. Sei que aqui entre nós há outros tradutores além de mim. A Sílvia, por exemplo, é tradutora de alemão, e tem trabalhado conosco, no IRWEC, traduzindo textos teológicos importantes. Semana passada, numa conversa, falávamos sobre a dificuldade em manter a inteligibilidade dum texto, ao mesmo tempo em que nos esforçamos para mantermo-nos fiéis à linguagem própria do autor do texto que estejamos traduzindo. Entretanto, independentemente do excelente trabalho de tradução efetuado por um tradutor ou um grupo de tradutores, quando lemos uma tradução, não estamos lendo o texto original – estamos lendo a interpretação daquele feita por um terceiro.

Recentemente, ensinei um minicurso a um grupo de universitários não acostumado a questões como essas, e percebi o quão difícil foi, para alguns deles, entenderem que a “Bíblia” que discutíamos era uma construção histórica. Era uma construção, em primeiro lugar, por não ter “caído do céu” pronta – seus textos, independentemente da natureza que lhes atribuamos (i.e., se inspirados pelo Divino ou não), foram compostos e editados por humanos como nós durante um longo período de tempo; em segundo lugar, todos aqueles textos foram vertidos duma língua a outra, e (por muito tempo) dessa outra a uma terceira – e imaginem a dificuldade que se teria, antes de se ter acesso a tecnologias linguísticas tão sofisticadas (e, mesmo assim, limitadas) como as que temos hoje, para traduzir um texto do hebraico para o grego, e depois traduzir essa tradução para o latim: quantos “equívocos” linguísticos, e consequentemente, teológicos, não poderiam ter resultado disso?; em terceiro lugar, aquilo que chamamos de “Bíblia” não é um livro, mas, como indica seu próprio nome, que deriva do grego, é uma pluralidade, uma coleção de escritos – que não surgiram todos ao mesmo tempo e no mesmo lugar, nem foram compostos pelo mesmo autor, nem na mesma língua original! Imaginem o quão confuso e traumático isso pode ser para alguém que está acostumado a ler uma tradução que é tratada como uma obra única e original!

A reação de muitas pessoas – seja um público mais geral, quando falo em ambientes fora de nossa comunidade de fé, ou seja em meio a um grupo de estudantes – tem sido a de surpresa e ofensa, quando falo de um tema tão natural como este: o fato de nossa Escritura Sagrada, em inglês e/ou português, no caso de nossa comunidade, ser a tradução de uma construção histórica imperfeita. Como ouso tomar este tempo tão sagrado em nossa comunidade, no qual outros pregadores em outras comunidades cristãs estariam exaltando palavras extraídas de suas traduções da Bíblia, para chamá-la de construção histórica imperfeita, de criação humana, ou de uma simples tradução? Isso, em si, já seria evidência mais que suficiente de nossa heresia e não-cristandade, na visão de algumas pessoas.

Mas, para aqueles que costumam se preocupar tanto em afirmar a biblicidade de sua fé, faço uma pergunta: onde, em sua tradução da Bíblia – ou em seu texto em hebraico e grego – está explícita e inequivocamente declarado que este volume que alguns costumam carregar em suas mãos com orgulho seja sinônimo de Evangelho? Onde está escrito que o centro da fé cristã é um volume de textos escritos e traduzidos por outros homens – e onde está listado que textos sejam esses, exatamente –, e não a vida, obra e ensinamentos daquele que todos os cristãos dizem seguir?

Sempre penso que a questão por trás da insegurança que acompanha o enfrentamento da historicidade das bases teológicas de nossa fé seja, de fato, a questão da verdade. Pois se desafiarmos uma compreensão literal restritiva das narrativas bíblicas, por exemplo, estaríamos negando “a verdade”. O problema é que esse tipo de argumento só faz sentido se entendermos “verdade” como sinônimo necessário de “factualidade” – um equívoco interpretativo cometido não apenas por cristãos fundamentalistas, mas também muito defendido por ateus militantes (quando se trata de suas críticas ao Cristianismo, em particular).

A hermenêutica cristã fundamentalista – ou seja, a teoria que baseia sua interpretação dos textos sagrados – enxerga (quando lhe é conveniente, isto é) as narrativas bíblicas como relatos factuais. Assim, Jesus, de fato, caminhou sobre as águas; Moisés, de fato, abriu o Mar Vermelho; de fato houve um primeiro casal num Jardim do Éden etc. A leitura dessas tradições bíblicas não pode ser feita de maneira metafórica, pois a factualidade das narrativas é essencial para a veracidade da Escritura. A não-factualidade narrativa invalidaria a veracidade das palavras. Imaginem o efeito duma operação interpretativa como essa, se a mesma fosse aplicada à famosa pintura de John Trumbull representando a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos e à pintura de Pedro Américo que representa a declaração de Independência do Brasil por D. Pedro I: os eventos que representam não seriam verdadeiros, se os cenários não tivessem sido como representados naquelas obras de arte!

Alguns poderiam argumentar que a narrativa cristã só é verdadeira se aquele suposto discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, que acabamos de ouvir na leitura do Evangelho de hoje, de fato aconteceu, ou aconteceu literalmente como relatado. Não preciso reforçar que não compartilho dessa compreensão de “verdade”. Para mim, não importa se a tradição oral que deu origem àquela narrativa escrita tenha surgido apenas como resposta ao sentimento dos seguidores do rabino nazareno após o que veio a ser chamado posteriormente de “Ressurreição”, e que não tenha factualmente ocorrido como relatada ou que não tenha ocorrido de forma alguma. Para o espírito da tradição cristã, independentemente das peculiaridades de cada uma de nossas correntes teológicas, aquelas palavras são verdadeiras. Nós unitaristas, e outros cristãos e judeus liberais, diríamos que a “verdade” não se encontra nas palavras per se daquela narrativa, mas nos efeitos que as mesmas têm em transformar nossas mentes e ações; se elas ajudam-nos em nosso processo de Imitatio Dei (Imitação de Deus) e Imitatio Christi (Imitação de Cristo), elas nos levam à Verdade Eterna, então são verdadeiras – mesmo que sejam metafóricas.

Na introdução de “Verdade e Método” (sim, estou usando uma tradução), o filósofo Hans-Georg Gadamer, sugere algo interessante: em se tratando da investigação filosófica, seria uma fraqueza que alguém hoje não reconhecesse a verdade presente nos textos dos grandes filósofos do passado, como Platão, Aristóteles, Leibniz, Kant ou Hegel, achando que poderia construir sua própria filosofia sem beber da fonte desses pensadores [2]. Para mim, seu raciocínio pode ser aplicado ao universo teológico: como cristãos ou judeus, não podemos rejeitar a sabedoria e a verdade do passado, simplesmente por a linguagem dessa verdade ferir nossa sensibilidade moderna. O que podemos fazer é encarar as dificuldades interpretativas e buscar, por exemplo, na linguagem metafórica e simbólica a verdade que nos moverá para mais próximos à Verdade Eterna, o Divino que devemos imitar em nossas ações para com nossos vizinhos.

O espírito das palavras das Escrituras, o espírito presente na tradição bíblica, e que molda a tradição cristã, é o que nos dá vida. O amor que Jesus exigiu daqueles que ousarem seguir-lhe para com Deus e o próximo é a verdade. Esse é o sentido misterioso e eterno que se esconde por baixo daquelas palavras antigas traduzidas e retraduzidas de nossos livros sagrados. Esse é o Evangelho!

[1] MILES, Jack. Deus: uma biografia. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009. p. 124.
[2] GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 32-33.

+Gibson

(Sermão – 26 de agosto de 2012)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Politizando a fé ou cristianizando a política?

Este é mais um ano de eleições em nosso paraíso utópico. Mais um daqueles períodos que se repetem a cada dois anos, no qual teremos de escolher nossos supostos representantes políticos – que, neste ano de 2012, limitam-se à esfera municipal.

Este é um daqueles anos nos quais a face de “lobos” sociais – e sim, deem a essa expressão um sentido bem pejorativo! –, se revestirão duma áurea angelical, tentando fazer com que seus eleitores esqueçam-se da indiferença, incompetência, irrelevância, e mesmo traição, que caracterizaram seu tempo anterior na esfera pública (por eles “privatizada”!). Se isso não é verdade sobre todos aqueles que buscam reeleição, estou convencido de que seja verdade sobre a maioria deles.

Mesmo em muitas igrejas cristãs, esta se torna uma época na qual os sanguessugas do povo se escondem por trás duma máscara de devoção e fé, recitando com seus lábios corruptos e imorais os nomes de Deus, de Jesus, e versículos bíblicos, na imoral esperança de arrancarem os votos dos crédulos desesperançados. Isso me enoja e me enfurece!

Para um unitarista como eu, devoto defensor da absoluta separação entre Estado e Igreja, é vergonhoso que a fé cristã seja maliciosa e imoralmente “politizada”, ao mesmo tempo em que a política é também maliciosa, imoral e corruptamente “cristianizada”. Se é verdade que, individualmente (enquanto cidadãos), os cristãos levarão suas convicções teológicas consigo para a esfera de suas decisões políticas (o que é perfeitamente natural!), isso não significa rebaixar os valores e a linguagem do Evangelho ao discurso do jogo político no tabuleiro de xadrez dos atores do poder. E o mesmo vale na direção oposta: não se pode cuspir nos princípios constitucionais, impondo-se uma falsa interpretação da Liberdade e da Democracia apenas para agradar ao paladar religioso duma certa plateia. Considero isso imoral, além de uma traição dupla – uma desgraça ao espírito da cidadania (se é que isso existe no Brasil!) e um escárnio do espírito cristão (se é que isso existe na Igreja!).

Interessa-me, profundamente, a questão da politização da fé. O termo é problemático, já que a fé cristã per se é uma questão política, considerando-se que só se é cristão pleno em comunidade. Logo, argumentar contra a “politização” da fé cristã pode parecer uma grande contradição. Quando falo em “politização”, entretanto, utilizo esse termo com um sentido mais próximo daquele a ele dado em nossas conversas informais. Assim, politizar a fé seria transformá-la em instrumento para alcançar finalidades políticas (leia-se “politiqueiras”).

A história recente do cenário político brasileiro nos mostra aonde isso nos leva. Os “pastores” tais, os “irmãos” tais, que se aproveitam da incapacidade crítica de seus eleitores – e crítica não apenas no que tange à esfera civil, como também no que concerne à esfera teológica! – para conseguirem sequestrar seu voto, e deleitarem-se na imoralidade que tornou-se sinônimo da política nacional! Os corruptos pseudo-cristãos que formaram uma bancada imoral no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas estaduais, e nas câmaras municipais Brasil afora para defenderem não as causas de seus eleitores, mas as causas de seus interesses pessoais por poder e fortuna. É a “política gospel” brasileira, e ela me enoja!!!

Não pensem, contudo, que apenas cristãos fundamentalistas e conservadores, ou evangélicos semianalfabetos se engajam – mesmo que indiretamente – nesse tipo de empresa herética por meio de seus votos e/ou ativismo. Nós, cristãos liberais e moderados, constantemente cometemos erros semelhantes – mesmo que nossas intenções pareçam mais nobres (direitos iguais para cidadãos LGBTs e para mulheres, proteção do meio ambiente, etc).

Lembro-me, por exemplo, das discussões que tivemos para decidir se nossa congregação – enquanto instituição – apoiaria uma tradicional passeata organizada por entidades que se apresentam como representantes da comunidade LGBT em nossa cidade. Por eu ser abertamente gay para nossa comunidade de fé, alguns entre nós pensaram que me poria em favor de nossa participação. Aparentemente, não compreendiam o fato de eu apoiar a clássica compreensão unitarista de separação dos cenários religioso e político.

No contexto desse exemplo da “Parada da Diversidade”, aquelas entidades não estavam lá para defender ou apoiar as mesmas coisas que nós, como comunidade de fé, defendemos e apoiamos. Sim, nós pregamos a igualdade de direitos para todos os cidadãos. Sim, nós pregamos a tolerância e a apreciação àqueles que diferem de nós. Sim, nossa comunidade tem há anos celebrado a presença e plena participação de indivíduos LGBTs entre nós – e eu, melhor que ninguém, posso testificar disso. Mas nós, enquanto comunidade cristã, assim o fazemos por compreendermos que nossa fé nos conclama a isso: Cristo nos chama a amar e receber a absolutamente todos – é assim que nós unitaristas e outros cristãos liberais interpretamos nossa fé cristã. O que motiva eventos como a tal Parada não é isso; sua bandeira política não se encaixa perfeitamente com a bandeira teológica desta comunidade de fé enquanto instituição.

O mesmo se aplica a questões como movimentos de trabalhadores rurais, movimentos feministas, e movimentos ambientais. Mesmo que cada um desses pareça defender causas nobres – que, em muito se assemelham a alguns de nossos princípios teológicos –, suas motivações residem em algumas visões e anseios políticos que contradizem a essência da teologia de nossa comunidade de fé (novamente, enquanto instituição, já que, individualmente, somos livres para defendermos as ideias que quisermos). Por essa razão, julgo como sábia a decisão desta congregação de não se envolver institucionalmente em atividades explicitamente políticas como essas, apesar de sempre incentivá-los a, individualmente, serem cidadãos politicamente ativos e se engajarem nas causas políticas nas quais acreditam.

Creio que a melhor coisa que esta igreja pode fazer para ajudar o Brasil é continuar a ensinar a mensagem cristã como a compreendemos. Enquanto instituição religiosa, essa é nossa missão e nosso dever. A mensagem do Evangelho, como a compreendemos, juntamente com toda instrução secular possível, ensinará nossos filhos a serem bons vizinhos, amantes da Liberdade e da Democracia, cidadãos honrados que defenderão os direitos constitucionais democráticos e que cumprirão suas obrigações civis de acordo com os ditames de sua consciência individual. Essa é a melhor contribuição política que podemos fazer a este país e ao mundo. Não precisamos politizar nosso cristianismo, nem cristianizar nossa política.

Como o próprio Jesus supostamente ensinou: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:17-21).


+Gibson
(Congregação Unitarista de Pernambuco – 27 de julho de 2012.)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um Manifesto de Esclarecimento


Tenho sido um ministro religioso há uma década. Como ministro ordenado de quatro diferentes denominações religiosas, meu orgulho tem sido o de poder afirmar que não faço de meu ministério sacerdotal uma carreira profissional. Sou um ministro não-estipendiário de minha paróquia – o que significa que não recebo pagamento pelos serviços sacerdotais que presto, e que, como todos os meus paroquianos, tenho de trabalhar para me sustentar. Apesar de minha excelente formação acadêmico-teológica, tenho de trabalhar fora da igreja para me sustentar – não aceitando um único centavo de minha comunidade de fé ou de nenhuma outra por nenhuma função ministerial, o que inclui, mas não se limita a: casamentos, rituais funerários, batismos, confirmações, ritos eucarísticos etc. Não exerço, nem tenho o interesse em exercer nenhuma função administrativa que me obrigue a lidar com fundos financeiros em nenhuma das três comunidades as quais presto meus serviços ministeriais/sacerdotais – nessas comunidades as funções administrativas são exercidas por um grupo distinto daqueles que exercem funções sacerdotais, logo, nunca tive de lidar com finanças em meu ministério (e, como afirmei antes, isso tem sido um motivo de orgulho para mim).

Imaginem minha surpresa, então, quando descobri hoje que CDs e apostilas de palestras minhas – palestras proferidas num contexto de meu ministério religioso – estavam sendo vendidos “por uma pequena oferta” de R$20,00!!! Nunca, em toda a história de minha vida sacerdotal/ministerial cobrei por palestras, cursos ou ofícios religiosos, e nunca vendi materiais relacionados a essas mesmas palestras, cursos ou ofícios religiosos. Os livros de temática religiosa que vendi e/ou vendo, no Brasil, foram/são feitos por meio de publicação on demand a preço de custo – e nunca lucrei com eles um único centavo, nem mesmo para cobrir as muitas horas dedicadas à sua composição! (E a razão para isso é a mesma que pauta minha missão sacerdotal/ministerial: sou ministro duma comunidade de fé, a qual ofereço-me voluntariamente!).

Minha infeliz descoberta deixou-me furioso e, acreditem, as devidas ações legais serão tomadas contra aqueles que se aproveitaram de minha boa-vontade! Novamente, eu, enquanto ministro religioso, não vendo nada, não cobro nada, não peço nem aceito contribuição de absolutamente ninguém. O que preciso e quero me chega por meio de meu esforço profissional – e não por meio da exploração da fé alheia. Igualmente, ninguém – absolutamente ninguém – está autorizado a cobrar nada em meu nome!

Atenciosamente,

Rev. Gibson da Costa
Ministro da Congregação Unitarista de Pernambuco/Igreja Cristã Livre de Recife/Church of the Disciples

sábado, 7 de julho de 2012

Deus falou comigo na Avenida Boa Viagem


Hoje cedo ouvi a voz de Deus:
Ela falou comigo na Avenida Boa Viagem.
Quando me viu,
me chamou de “gracinha”!
Coitada de Deus,
Ela parecia cansada,
mas sequer pensei em oferecê-la
água de coco!
Deus usava saltos altos,
e mini-saia colorida,
e acho que quando nasceu
chamaram-na de menino;
mas era muito bela,
duma maneira muito particular.
Me arrependo tanto de não lhe ter oferecido
um pouco de minha água de coco;
o que ela pensará de mim, agora,
quando rezar a ela
e pedi-la que me ouça?
Espero que sua graça feminina
possa fechar os olhos
para as grosserias e derrapagens
dum cara como eu.
Deus era tão grande,
fico pensando se ela tem problemas
para encontrar um emprego durante o dia
com aquela mini-saia!
Queria perguntá-la tanta coisa!
Espero que ela saiba que
sou um cara tímido quando
falo com alguém assim,
de surpresa!
Espero que ela esteja bem,
que ninguém a tenha maltratado esta noite!
Qualquer dia desses quero vê-la
novamente,
e, então, vou oferecê-la
um pouco de minha água de coco
e perguntá-la como foi sua noite de trabalho!
Será que Deus estará na Avenida Boa Viagem
novamente esta noite?

+Gibson

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sim, tenho minhas heroínas!


Não gosto de declarar publicamente que tenho meus heróis. É, é verdade: como todo ser humano, sinto aquela contagiante excitação diante dos ditos e feitos de alguns daqueles que compartilham minha condição humana! Na verdade, coleciono heróis, que vão desde mestres espirituais e músicos àquelas pessoas que brilham realizando atividades corriqueiras que não estão publicadas em páginas de livros impressos ou comentadas nos noticiários da televisão. Sim, eu coleciono heróis.

Neste quatro de julho, entretanto, penso nas minhas heroínas não-conformistas: aquelas freiras católico-romanas norte-americanas que desafiam o status quo político e eclesiástico, e sobre o que elas simbolizam para a história da Cristandade.

O que quero, na verdade, é saudar a coragem das mulheres que têm encontrado sua liberdade em uma vida de serviço – mesmo que esse serviço esteja materializado numa vida de oração e contemplação. A natureza dessa liberdade pode ser incompreensível para mim, pelo menos no caso daquelas que se isolam deste mundo exterior, mas o ativismo das “Freiras no Ônibus” oferecem uma visão da força feminina mesmo num universo onde não desempenhem uma liderança plena. Essas mulheres compensam a impossibilidade duma liderança normativa com uma liderança moral que deveria envergonhar aos homens (sim, aqueles seres humanos do sexo masculino!).

Pois é, tenho heroínas. Posso não concordar com suas motivações políticas – a base teórica que usam para seu ativismo político, isto é –, mas não seria íntegro se não reconhecesse seu vigor ético e seu exemplo moral. Elas me fazem pensar sobre um novo sentido para o termo “liberdade”.

+Gibson

terça-feira, 19 de junho de 2012

Mundo pós-cristão ou Igreja anti-cristã?


Será que aqueles que dizem que vivemos num mundo cada vez mais pós-cristão estariam certos? Esse foi o tema duma conversa que tive esta noite com uma amiga à mesa duma sorveteria. Minha amiga trouxe o assunto à tona, citando Michel de Certeau e Bernard Piettre – autores por quem, bem sabe ela, tenho uma certa simpatia.

Obviamente, tenho minhas resistências a esse tipo de afirmação. Primeiro, perguntei-lhe o que se queria dizer com “cristão” para poder entender a expressão “pós-cristão”; afinal de contas, há uma certa relatividade no que esse termo significa para as diferentes tradições cristãs, e para as diferentes formas de olhar para essas tradições a partir de fora da Igreja. Em segundo lugar, não se pode esperar que a visão de autores europeus – baseada em sua própria experiência num universo cultural acadêmico urbano – represente a experiência de toda a população de seu próprio país, muito menos a de todo o mundo. Certamente, teriam de repensar seu discurso se conhecessem a realidade distinta da experiência religiosa aqui no Brasil.

O que sei, por certo, é que mesmo dentro da própria Igreja (em toda a sua variedade teológica e eclesial: católica, protestante, etc) se conhece cada vez menos a narrativa cristã: menos teologia, menos ética cristã, menos história da igreja, menos tradição. As igrejas de nossa terra desperdiçam muito tempo, esforço, e talentos engalfinhando-se em disputas vergonhosas, esquecendo-se de ensinar seus jovens – seu futuro – a mensagem do Evangelho: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:3-9).

O desconhecimento da narrativa cristã pelos próprios cristãos, e a ênfase numa suposta pureza exterior – numa suposta superioridade espiritual (e que não tem nada de “espiritual”, já que só enfatiza o exterior como forma de auto-bajulação) – por parte da Igreja (i.e., daquelas comunidades cristãs variadas) é um testemunho vergonhoso da irrelevância da fé. A fé cristã, se observada na prática daqueles que se identificam como cristãos, torna-se irrelevante para o mundo. Torna-se irrelevante quando se preocupa com detalhes inúteis, como o tamanho da saia que uma mulher usa, ou se um homem tem um brinco na orelha. Torna-se vergonhosamente irrelevante quando não encarna a receptividade que supostamente marcou a vida de Jesus de Nazaré, renunciando a comunhão cristã àqueles(as) que exibam uma orientação emociono-sexual diferente, ou àquelas que se tornaram mães solteiras, por exemplo. Tornando-se ainda irrelevante de tantas outras formas que não consigo pensar agora!

Então, não é o mundo que tem se tornado pós-cristão, é a Igreja (cristã) que se tem tornado, não pós-cristã, mas anti-cristã em sua práxis comunal. Talvez esteja na hora de (re)descobrir o caminho de volta!

+Gibson

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O que um grupo de jovens me ensinou sobre "salvação"

Como sempre ocorre, começamos nossa pequena reunião informal com uma canção e uma afirmação. Ele demonstrava mais confiança do que o usual: tocou em seu violão a melodia duma canção conhecida da banda Kid Abelha, que todos nós acompanhamos com nossas vozes; seu amigo, aparentemente destemido, rezou palavras extremamente maduras para alguém de sua idade. Foi o início de mais uma reunião dum grupo de jovens que coordeno, e no qual os participantes têm a oportunidade de discutir suas experiências pessoais e refletir sobre sua espiritualidade sem a formalidade usualmente esperado duma igreja ou algo semelhante.

Ele contou-nos que havia sido expulso de casa na semana passada. Dezoito anos, estudante universitário, o caçula de três filhos. Seu pai enfurecera-se ao descobrir que seu filho mais novo era gay. Ambos trocaram acusações. Ambos se ofenderam. Seu pai ofereceu-lhe a porta de saída como solução. Agora estava na casa de seu irmão mais velho que, apesar de não estar muito confortável com a ideia de ter um irmão caçula gay, não lhe fechara a porta.

Essa é a história de muitos daqueles jovens que conheço e com quem passo algumas horas todas as semanas. Jovens gays que buscam um tipo de meio social no qual possam explorar outras atividades além daquelas geralmente oferecidas ao nosso redor. Nossa aliança é que não temeremos uns aos outros, mas, em vez disso, construiremos pontes de confiança, amizades persistentes. Isso envolve conversas sobre qualquer coisa – família, amor, sexo, Deus, religião, espiritualidade, política, entretenimento etc; envolve diversões sadias, como o cinema, esportes, música, uma noite de sábado na pizzaria ou sorveteria, ou na praia de Boa Viagem com um violão – como fizemos naquele nosso último encontro; envolve companheirismo, amizade, honestidade.

Os demais membros do grupo ofereceram seu apoio àquele nosso amigo. A conversa, de lágrimas, transformou-se numa sessão de risadas e canções alegres. Alguém leu umas palavras de Machado de Assis, outro leu um trecho duma sutra budista, outro leu uns versículos do evangelho de Mateus. Talvez, por alguns instantes, nosso amigo tenha esquecido o que estava acontecendo em sua vida. As canções, as conversas, as latas de Coca-Cola e a areia da Praia de Boa Viagem ajudaram meus amigos a se sentirem bem-vindos e benquistos entre si. Aquele era um processo de “salvação” se revelando diante de meus olhos. Salvação como a entendo.

Ainda não sei ao certo como comecei a me envolver com grupos de jovens. Na verdade, esse envolvimento é parte de meu chamado ministerial, mas também é parte de meu trabalho como professor, como também é parte integrante de ser humano. Alguém poderia achar que me sinto muito satisfeito por fazer algo para ajudar jovens, mas, na verdade, o que acontece é que sinto-me imensamente grato por ser ajudado e ensinado por eles. Aqueles jovens, de sua própria forma, me ensinam coisas novas todas as vezes que os ouço. Gostaria que não precisássemos de um grupo “de apoio” para que eles tivessem uma experiência segura do mundo. Gostaria que tivessem um espaço onde pudessem crescer como pessoas de forma segura, entre seus amigos e família – onde não precisassem mentir, nem se esconder, nem temer. Gostaria que tivessem adultos que pudessem conversar com eles, sem que essas conversas terminassem em acusações. Isso seria bem melhor, especialmente se encontrassem isso em seus lares, suas igrejas, suas escolas, seus círculos de amizade. Isso seria “salvação”. Essa é a salvação que esses jovens se oferecem mutuamente todas as semanas, e sou eternamente grato por ser testemunha desse círculo de amizade que eles construíram. Sou muito grato por isso!

+Gibson

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sobre Deus


Tenho certeza que muitas pessoas gostariam que eu fosse mais objetivo em minhas respostas a certas perguntas que me fazem, especialmente quando o assunto tratado diz respeito à fé, a Deus, a certezas etc. A conversa se inicia mais ou menos assim:

Alguém: Você acredita em Deus?
Eu: Isso depende!
Alguém: Como assim? A resposta é simples: sim ou não!
Eu: A resposta depende do que exatamente você queira dizer com a palavra “Deus”.
Alguém: Não tente se esquivar da resposta. Você sabe o que quero dizer. Deus é Deus.
Eu: Não. Não sei o que você quer dizer. Você se refere a um Deus pessoal ou impessoal; a Deus enquanto um indivíduo ou a uma ideia; a um Deus distinto da criação ou a um Deus que se confunde com a criação; a um Deus que pode ser plenamente compreendido por teorias humanas, como credos ou declarações teológicas, ou a Deus que está além de nossa compreensão plena. Não, eu realmente não sei o que você quer dizer exatamente com a palavra ou nome “Deus”, logo, não posso dizer se acredito em Deus ou não...

E a conversa segue um caminho distinto, dependendo de com quem eu esteja conversando.

Claro que esse tipo de diálogo pode funcionar com aqueles que tenham uma mente um pouco mais inquisitiva e que não se sintam ameaçados quando defrontados com um desafio teológico/semântico; também, é óbvio que esse tipo de brincadeira provavelmente não funcionaria com a maioria das pessoas. Esse é o tipo de jogo que faço com jovens unitaristas, ou com meus alunos de Teologia, ou, ainda, com amigos mais próximos. Raramente costumo fazer joguinhos semânticos como esse com outras pessoas, por razões tão óbvias que não preciso explicar aqui.

A verdade é que posso soar, para algumas pessoas, como alguém obcecado com o uso (ou não) de certos termos para falar acerca de minha fé. No exemplo acima, temos dois termos problemáticos (no sentido de poderem representar diferentes coisas para diferentes pessoas, a ponto de mudarem por completo a impressão final em nossa conversa): acreditar e Deus.

O que exatamente as pessoas querem dizer quando me perguntam se acredito em Deus? Que sentido dão ao verbo acreditar, neste caso? O sentido é o de uma operação intelectual com a qual construiria ou abraçaria uma compreensão lógica do Divino? Ou se referem exclusivamente a minha própria experiência do Divino?

E o que dizer sobre o uso que fazem do nome Deus? Esse termo, em nossa língua, tem tantos diferentes sentidos que preciso de uma pista mais clara sobre o que se quer dizer com ele.

Não tentem me classificar como adepto desta ou daquela escola de pensamento simplesmente por dizer isso, mas – em se tratando do Divino – não acredito que tenhamos a capacidade de compreender plenamente uma Realidade que esteja além de nosso mundo objetivo. É óbvio que enquanto parte duma tradição que se define através de afirmações lógicas – como o Cristianismo –, faço uso das mesmas para articular minhas noções teológicas; isso é, em parte, o que estou tentando fazer agora. Entretanto, articular gnomas teológicas para discutir o Divino não é o mesmo que tentar definir a Deus em termos objetivos. Deus não é um objeto que possa ser colocado sob um microscópio, e que possa ser analisado como analisaríamos o interior duma célula. Deus é uma Realidade inesgotável dentro da qual somos (Atos 17:28). Na realidade, mesmo essa gnoma é problemática, pois se eu digo que Deus é, estou, na verdade, construindo limites existenciais para uma Realidade que supera minha capacidade de observação e, consequentemente, de compreensão. Aí reside o problema para se falar sobre Deus: nossos substantivos, nossos adjetivos e nossos verbos não são capazes de lidar com a abrangência de tal Realidade.

Deus não é uma propriedade desta ou daquela tradição teológica, religiosa ou espiritual. Deus não é judeu, nem cristão, nem muçulmano; Deus não é teísta, nem liberal, nem conservador, nem fundamentalista; Deus não é tradicional, nem pós-modernista. Deus sequer é. Talvez a melhor maneira que posso pensar agora para falar sobre o Divino seja: Deus [ ] Real. Os colchetes substituem a incompletude do verbo ser. O nome “Deus” simplesmente representa aquela Realidade que está além de minha compreensão. O próprio nome “Deus” se tornou problemático, já que é incompleto e questionável. Por isso, prefiro utilizar “Realidade” – já reconhecendo sua limitação, enquanto substantivo.

Não. Não posso acreditar em Deus. Não posso encarcerar o Divino a minhas concepções teológicas. Só posso confiar e ser leal. Acreditar, ou mesmo crer, é algo que está além de minha capacidade intelectual humana. Confiar me basta.

+Gibson